Hoje Estarás Comigo No Paraíso

O dia da morte de qualquer salvo em Cristo é contemplado pela mesma promessa feita ao ladrão na cruz. O mesmo ‘hoje’ dito ao ladrão na cruz é o dia de qualquer salvo encontrar com Cristo nos ares.


Hoje estarás comigo no paraíso

“E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 23:43).

 

O versículo em questão é utilizado tanto por teólogos que defendem a imortalidade da alma, quanto por aqueles que defendem a mortalidade da alma.

A corrente teológica majoritária defende a imortalidade da alma, e a minoritária, que a alma é mortal, e apresenta a teoria do ‘sono da alma’.

É ferrenha a disputa entre os defensores das duas correntes, e assim como se dá uma disputa no Cabo de Guerra, a promessa de Jesus feita ao ladrão na cruz tornou-se o ponto central da disputa.

Um dos pontos da disputa se dá no campo da linguística, pois na antiguidade não existiam sinais de pontuação no idioma grego. Como não há uma regra na língua grega antiga que determine qual deve ser a posição de um adverbio em relação ao verbo, se antes ou depois, os defensores de suas correntes doutrinárias procuram argumentos para determinar se na frase dita por Jesus o adverbio de tempo ‘hoje’ modifica o sentido do verbo ‘dizer’, ou se modifica o sentido do verbo ‘estar’.

Este artigo, por sua vez, não tem o condão de assumir um lado da celeuma, e sim, esclarecer qual o destino dos salvos em Cristo após a morte.

O versículo que contém a promessa de Jesus feita ao ladrão na cruz destaca o que ocorre com os salvos após a morte, mas não serve para determinar questões doutrinárias sobre a mortalidade ou a imortalidade da alma.

 

Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino

“Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: – ‘Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.’” (Lucas 23:40-42).

Quanto na cruz, Jesus prometeu a um dos ladrões que estava sendo crucificado ao Seu lado que naquele mesmo dia ambos estariam reunidos no paraíso (Lucas 23:43).

Essa promessa maravilhosa tem suscitado grande celeuma ao longo da história do cristianismo, e dela surgiram algumas objeções: Como seria possível o ladrão estar com Cristo naquele mesmo dia, se Cristo esteve morto por três dias e três noites? Se Jesus não subiu ao Pai durante os três dias que esteve morto, como Ele poderia ter estado no mesmo dia no paraíso com o ladrão?

O entrave se dá porque muitos teólogos leem a promessa de Jesus pensando no Cristo-homem que foi crucificado e que em obediência ao Pai precisava morrer, e se prendem ao fato que o corpo de Jesus desceu à sepultura e lá permaneceu por três dias.

O foco nos eventos após a morte do Cristo-homem tolhe a compreensão da promessa feita ao ladrão e muitos leitores acabam não se dando conta que a promessa feita na cruz se cumpre na pessoa do Cristo ressurreto e glorificado, a expressa imagem do Deus invisível, e não conforme as fraquezas pertinentes ao Cristo-homem.

Analisando o evento da crucificação, temos várias perspectivas a considerar:

  1. a perspectiva do Cristo na cruz (Lucas 23:24);
  2. a perspectiva dos dois ladrões pendurados no madeiro (Lucas 23:39-40);
  3. a perspectiva dos opositores e algozes de Cristo que promoveram a crucificação (Lucas 23:35-37), e;
  4. a perspectiva dos discípulos que, amedrontados, assistiam a tudo de longe (Lucas 23:49).

Nesse ponto do texto, procuraremos entender e pormenorizar a perspectiva do ladrão que recebeu uma promessa que influenciaria o seu destino final após morrer.

Enquanto na cruz, a perspectiva do ladrão acerca de Cristo é evidente:

‘Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.’

Com base no que havia ouvido falar de Jesus, aquele homem condenado à morte de cruz pelos seus delitos compreendia que com justiça os seus feitos o colocaram naquela condição. E ainda mais, deveriam reverenciar a Deus não injuriando alguém que nada tinha feito, mas que estava sendo condenado a mesma pena.

A perspectiva acima do ladrão foi formulada enquanto estava vivo, mas qual foi a perspectiva dele após expirar na cruz?

Essa resposta não encontraremos nos evangelhos, e sim em outros textos bíblicos. Considerando o exposto pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Tessalônica, verifica-se que naquele mesmo instante (dia), após expirar na cruz, o ladrão que foi salvo abriu os olhos em decorrência de um alarido, semelhante a voz de arcanjo, e de posse de um corpo ressurreto e glorioso semelhante ao de Cristo e, juntamente com outras pessoas ressurretas, de imediato subiu ao encontro de Cristo nos ares!

Como creu e confessou (admitiu) que Cristo tinha um reino e rogou para não ser esquecido (expressão de um pedido de misericórdia), o ladrão na cruz morreu em Cristo, condição sine qua non para ser salvo e ressurgir com Cristo quando da sua volta para buscar a igreja (Romanos 10:10).

A perspectiva do ladrão que rogou a Cristo por misericórdia após morrer não é diferente da perspectiva que terão todos os que são salvos em Cristo, pois assim como o ladrão na cruz, no mesmo dia que morrerem estarão com Cristo no paraíso.

O ladrão da cruz salvo é só mais um dos muitos cristãos que, na volta de Cristo para arrebatar a Sua igreja, ressurgirão com um corpo glorioso e se encontrarão com Cristo!

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.” (1 Tessalonicenses 4:16).

A promessa que Jesus fez ao ladrão na cruz não é diferente da promessa feita para mim ou para você, pois a promessa diz respeito a todos quantos morrem em Cristo. Se eu ou você, que cremos que Jesus de Nazaré é o Cristo, morrermos no dia de hoje, certamente hoje mesmo estaremos com Cristo no paraíso! Estar onde Jesus estiver é o paraíso.

“E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também.” (João 14:3);

“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.” (1 Tessalonicenses 4:17);

“Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.” (Filipenses 1:23).

Partir deste mundo salvo é estar com Cristo para sempre onde Ele estiver, portanto, o paraíso.

E aqui se faz necessário algumas observações!

Quando Jesus utilizou o termo grego παραδείσῳ (paraíso) na promessa, assim o fez em referência à Sua volta em o Seu βασιλείαν (reino). Isso significa que o termo não remete aos jardins persas, ou aos terrenos para caçadas reais, ou ao jardim do Éden.

A tradição judaica apresenta várias teorias para o inferno, mas percebe-se através do que está registrado em várias passagens do Talmud que o pensamento judaico foi influenciado pelos babilônios, persas e gregos.

Para o judaísmo, quando alguém morre passa a habitar o o Jardim do Éden espiritual, ou o “céu”. No Jardim do Éden, a alma desfruta das beatitudes, o que só é alcançado estudando a Torá e praticando boas ações.

Nesse Éden, após completar um ano (yahrzeit), o aniversário de falecimento, a alma se eleva a outro nível se aproximando mais de Deus, como se fosse uma espécie de purgatório.

Antes mesmo de acessar o Jardim do Éden, o pecador precisa passar por um processo de purificação de modo a voltar ao nível de pureza que a alma possuía antes de entrar no mundo físico, e assim se tornar receptível a presença de Deus. É uma espécie de purificação que causa dor, o que denominam “Gehinom” ou “Inferno”.

Mas, para a nossa abordagem vale destacar que o termo grego traduzido por paraíso tem origem persa, e significa ‘jardim’, o que remete a bem-aventurança.

Pelo tempo exíguo imposto pela condenação à morte de cruz, tanto para Jesus quanto para o ladrão, o termo παραδείσῳ não pode ser visto como elemento doutrinário, e sim, um termo genérico conhecido em todas culturas que remente a algo aprazível, venturoso.

O termo grego παραδείσῳ (paraíso) na promessa remete a pessoa de Cristo, pois só a autoridade de Cristo que estabelece o Seu reino ditoso.

“Lembra-te \ μου = de mim \ ὅταν = quando \ ἔλθῃς = vier \ εἰς = em \ τὴν =o \ βασιλείαν = Reino \ σου = de ti.”

O adverbio de tempo σήμερον (hoje) remete a efetividade da promessa, assegurando ao ladrão ditosa esperança naquele instante de conversão, mesmo diante da horrível expectação em vista da pena capital que se avizinhava.

Jesus não podia prometer salvação para o ‘amanhã’, ou para ‘algum dia’, pois a salvação diz de um tempo oportuno, o tempo aceitável: hoje!

“(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação).” (2 Coríntios 5:6).

Como o adverbio de tempo ‘hoje’ Jesus estava enfatizando ao ladrão que havia escutado a suplica e que haveria de socorre-lo!

“Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo.” (Romanos 10:13).

Enquanto o ladrão estivesse vivo ainda havia esperança, e ele estava diante do Senhor que inaugurou o tempo aceitável, o dia de salvação: o agora, o hoje!

‘Hoje’ diz do tempo dos homens, o que contrasta com a eternidade.

Ao proclamar o Seu decreto acerca do Seu Filho, Deus disse: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” (Salmos 2:7), de modo que o ‘hoje’ remete ao dia que Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, quando o Verbo eterno deixou o seu poder e gloria e passou a condição de Filho.

O dia da morte de qualquer salvo em Cristo é contemplado pela mesma promessa feita ao ladrão na cruz. O mesmo ‘hoje’ dito ao ladrão na cruz é o dia de qualquer salvo encontrar com Cristo nos ares. No mesmo instante que cessam as funções vitais de qualquer pessoa salva em Cristo, ela despertará para uma nova realidade existencial com um alarido que anuncia a vinda do Senhor Jesus dos céus até as nuvens. Basta fechar os olhos para essa existência que os salvos ouvem o altissonante comando do Senhor, semelhante à voz de arcanjo e a trombeta de Deus, quando encontrará o Senhor nas nuvens do céu em glória, de posse de um corpo ressurreto glorioso, evento que se dará em um piscar de olhos e perceptível somente aos salvos.

Essa verdade se depreende do seguinte ensinamento do apóstolo Paulo:

“Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem.” (1 Tessalonicenses 4:15).

Como os salvos que estiverem vivos quando Cristo vier buscar a sua igreja não precederão os salvos que morreram em Cristo, vez que, primeiro os mortos serão ressuscitados, e depois, os vivos serão arrebatados e, juntamente, ressuscitados e arrebatados encontrarão com Cristo nas alturas, isto significa que o dia da vinda de Cristo para buscar o seu corpo refere-se ao ‘hoje’ prometido ao ladrão.

Todos os salvos em Cristo quando morrem, no mesmo dia (instante) passam a estar com Cristo no seu reino (paraíso), por isso o apóstolo Paulo declarou que enquanto vivesse estaria ausente do Senhor, mas se morresse, passaria a habitar com o Senhor.

“Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (Porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.” (2 Coríntios 5:6-8);

“Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.” (Filipenses 1:23).

Certo é que o ladrão na cruz foi um dos primeiros salvos que morreram no advento da Nova Aliança, depois foram mortos Estevão, depois Pedro, depois João, e hoje, muitos cristãos morrerem e são igualmente salvos, mas ninguém precede o outro com relação a estar com o Senhor.

Estevão morreu primeiro que o apóstolo Pedro, mas Estevão não precederá o apóstolo Pedro na ressurreição. O apóstolo João foi o último dos apóstolos a morrer, mas ele não precederá qualquer dos cristãos salvos que morrerem antes dele, ou qualquer cristão que morrer neste exato momento.

Todos os cristãos de todos os lugares e épocas quando morrerem abrem os olhos no mesmo instante no evento do arrebatamento da igreja de posse de um corpo glorioso conforme o corpo de Cristo e encontrarão com o Senhor Jesus nos ares.

“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” (Filipenses 3:21).

Semelhantemente, todos os perdidos, desde os descendentes direto de Adão até o último perdido que morre hoje, todos eles abrirão os olhos no mesmo instante diante do Grande Trono Branco para serem julgados segundo as suas obras.

O primeiro homem perdido que morreu lá no Gênesis não precede o último homem perdido que morre hoje com relação à última ressurreição dentre os mortos, e todos comparecerão juntamente diante do Grande Trono Branco.

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.” (Daniel 12:2);

“Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.” (João 5:28-29).

Ao morrer, o ladrão que zombou de Cristo, naquele mesmo dia abriu os olhos e se deparou com o tribunal do Grande Trono Branco juntamente com uma grande multidão de todos os povos e línguas, tanto nobres quanto comuns.

“E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras.” (Apocalipse 20:11-12).

“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo,” (Hebreus 9:27).

O evento do julgamento do Grande Trono Branco será singular, pois não haverá espaço/tempo para os que ali comparecerem, visto que no evento terra e céus desaparecerão (espaço) ante a presença de Deus, e será o evento em que Deus pedirá conta de tudo o que passou (tempo).

“E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles.” (Apocalipse 20:11);

O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.” (Eclesiastes 3:15).

Da perspectiva de quem está vivo nos dias atuais, a promessa feita para o ladrão na cruz ‘hoje estarás comigo no paraíso’ cumpriu-se há dois mil anos atrás, mas o correto é compreender que a promessa se cumpre na volta do Cristo glorificado. Entretanto, da perspectiva do ladrão, a promessa foi cumprida naquele mesmo dia, pois ao morrer, o ladrão abriu os olhos diante de Cristo em função do alarido como voz de arcanjo quando da sua volta em glória.

As pessoas que questionam os termos da promessa de Cristo se limitam a pensar a promessa da perspectiva do Cristo-homem que estava sendo morto e que foi sepultado, e não se apercebem que a promessa se cumpre no Cristo ressurreto e glorificado.

Grande parte da celeuma que se arrasta ao longo dos tempos se dá porque muitos estudiosos não consideram a perspectiva de quem foi agraciado com a promessa de estar com Cristo no paraíso, e se fixam em considerar o seu próprio ponto de vista.

O ladrão estava prestes a sofrer a pena capital, e Jesus prometeu que naquele mesmo dia ambos estariam juntos no paraíso. Naquele mesmo dia, ao morrer, o ladrão abriu os olhos já de posse de um corpo glorioso ante a visão beatifica do Seu Redentor em glória nos ares.

 

A morte de Jesus e o sinal do profeta Jonas

“Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração.” (Lucas 11:30).

Para continuar a análise da promessa que o Senhor Jesus fez ao ladrão que esteve na cruz ao Seu lado, também se faz necessário compreender os eventos que se seguiram após a morte de Jesus.

Lembrando que os judeus buscavam sinais e os gregos sabedoria, é significativo o fato de os judeus insistirem em pedir um sinal nos céus, e a Jesus se negar a fazê-lo, asseverando que o único sinal que seria concedido para aqueles homens (geração má e perversa), seria o sinal do profeta Jonas (Mateus 16:1-3).

“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria;” (1 Coríntios 1:22).

Qual foi o sinal do profeta Jonas?

Segundo o registrado pelo evangelista Lucas, o Senhor Jesus propôs ser um sinal para aquela geração que ouviu as suas palavras assim como o profeta Jonas foi sinal para os ninivitas.

A geração que não se arrependeu (metanoia) ao ouvir os ensinamentos Jesus foi classificada como maligna, vil e adultera, pois não creram na palavra do Filho de Deus e pediam um sinal como condição para crer, sendo que a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus.

O profeta Jonas não fez nenhum milagre em Nínive e os habitantes daquela cidade creram, o que demonstra que um profeta, em função da mensagem que anuncia, de per si constitui um sinal para os seus ouvintes.

João Batista tinha o mesmo mister entre os judeus, pois não operou nenhum milagre, mas como percursor do Messias, segundo as Escrituras, ele era um sinal (Isaias 40:3).

Ao evangelizar boas novas de salvação, Jesus se tornou sinal para os seus concidadãos judeus (Mateus 12:41).

“E, ajuntando-se a multidão, começou a dizer: Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão o sinal do profeta Jonas; Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração.” (Lucas 11:29-30);

“Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião.” (Isaías 8:18).

Mas, tem outro ponto importante com relação ao sinal proposto por Cristo segundo o registrado pelo evangelista Mateus:

“Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas; Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.” (Mateus 12:40).

Jesus anunciou de antemão que permanecer três dias no seio da terra se equipararia aos três dias e as três noites que Jonas esteve no ventre da baleia, e que, especificamente, permanecer os três dias no seio da terra seriam um sinal para aquela geração.

Por que a ressurreição dentre os mortos não foi estabelecida como sinal, e sim, o permanecer no seio da terra por três dias? Observe que a ressurreição não foi dada como sinal, e sim, o permanecer no seio da terra. O que há de tão relevante em Cristo ter permanecido no seio da terra por três dias?

Considerando que era impossível à morte reter o Cristo na sepultura, pois não tinha poder sobre Ele, temos os elementos necessários para deduzir e compreender porque Jesus permanecer os três dias no seio da terra foi posto por sinal.

“Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela;” (Atos 2:24).

O motivo de Jesus ficar três dias sepultado é bem claro: o sinal estabelecido! O que é um sinal? A predição de um evento, quer ele seja miraculoso ou não! O sinal evidencia a veracidade e firmeza da palavra de Deus, portanto, a palavra de Deus é superior ao sinal.

“E isto te será da parte do SENHOR como sinal de que o SENHOR cumprirá esta palavra que falou.” (Isaías 38:7).

O sinal está mais para uma garantia, um penhor, que atesta a imutabilidade da palavra de Deus, do que somente um evento miraculoso. Nesse sentido, Deus estabeleceu para o povo de Israel as maldições como perseguições, guerras, fomes, pestes, etc., como sinal de que o povo havia se desviado da palavra de Deus e que deveria se arrepender.

“E todas estas maldições virão sobre ti, e te perseguirão, e te alcançarão, até que sejas destruído; porquanto não ouviste à voz do SENHOR teu Deus, para guardares os seus mandamentos, e os seus estatutos, que te tem ordenado; E serão entre ti por sinal e por maravilha, como também entre a tua descendência para sempre.” (Deuteronômio 28:45-46).

Quando se lê que a morte não podia reter o Cristo, isto significa que a morte não tinha como detê-lo nem por um milionésimo de segundo. Se não fosse o sinal do profeta Jonas estabelecido por Cristo: permanecer três dias e três noites no seio da terra, os homens que assistiam a crucificação nem mesmo perceberiam que Cristo havia morrido, pois imediatamente após a sua morte ressuscitaria e ninguém perceberia.

A morte e a ressurreição sem o sinal de Jonas seria algo imperceptível, pois seriam eventos instantâneos! Todos que estavam assistindo à crucificação não saberiam distinguir quando Cristo morresse ou quando ressuscitasse. Na verdade, somente perceberiam que o Cristo em ignominia, por causa do sofrimento, seria transformado em um corpo glorioso.

Se não fosse o sinal do profeta Jonas, Cristo diria: – ‘Pai, está consumado’, expiraria, e ressurgiria no instante subsequente, transformado em um corpo glorioso diante de todos, e seria impossível dizer se Cristo havia morrido, de igual modo, seria impossível dizer que Ele havia ressurgido dentre os mortos.

Como foi estabelecido um sinal, ao ser morto pelos pecadores, o Cordeiro de Deus permaneceu três dias e três noites na sepultura, mesmo Ele tendo existido e vivido sem pecado. Como Jesus nunca foi sujeito ao pecado, a morte não tinha poder sobre Ele para retê-Lo, mas o sinal do profeta Jonas, dado àquela geração perversa, possibilitou que visualizassem e testemunhassem quando Cristo morreu, pois se fez necessário atestarem a sua morte antes que fosse retirado da cruz e sepultado.

Guarde essa consideração: se a morte pudesse reter o Cristo por um segundo sequer, poderia rete-lo por toda a eternidade, pois o montante de poder exigido para reter o Cristo por um segundo não difere do poder para retê-Lo por uma eternidade. Qual a diferença para a morte reter um pecador por um segundo, dez segundos, sessenta segundos, uma hora, um ano, etc.?

A promessa de Deus Pai para o Filho foi:

“Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.” (Salmo 16:9-10).

A alegria do Cristo estava no fato de que, ao fazer a vontade do Pai se entregando aos pecadores para ser morto em resgate de muitos, o seu corpo estaria sob a proteção de Deus, e que Ele não ficaria à mercê da sepultura.

O profeta Davi anunciou de antemão a morte e o sepultamento de Cristo, mas Cristo, por sua vez, de antemão anunciou que permaneceria (estarei) três dias e três noite no seio da terra (Mateus 12:40), ou seja, Jesus previu o período de tempo que a Sua carne repousaria em segurança (Salmo 16:9).

Da promessa do repouso em segurança que consta do Salmo vem a ideia do paralelismo seguinte: não seria deixado na sepultura, consequentemente, não seria permitido a corrupção do Seu corpo.

Certo é que o primeiro homem, Adão, foi criado alma vivente conforme a expressa imagem do Cristo-homem quando fosse introduzido no mundo (Romanos 5:14). Cristo, aquele que havia de vir, ao ser introduzido no mundo, tornou-se em tudo semelhante aos homens para se possível chamá-los de irmãos, portanto, tornou-se alma vivente (Hebreus 2:14-17), o que tornou Jesus suscetível à morte física.

Na condição de alma vivente, participante de carne e sangue, o espírito vivificante (último Adão) participou da morte por todos visando beneficia-los (Hebreus 2:9). Mas, apesar de ter sido introduzido no mundo como alma vivente, o Cristo-homem viveu sem pecado, e a morte não tinha poder de detê-lo.

Isto significa que o sinal do profeta Jonas só foi estabelecido para que a humanidade soubesse que efetivamente Cristo morreu, e que Deus obrou maravilhosamente fazendo ressurgir dentre os mortos para a glória de Deus Pai.

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10:9).

 

Três dias e três noites no seio da terra

Para aqueles que assistiram à crucificação de Jesus, quando ouviram Ele dizer: – ‘Pai, está consumado’, também presenciaram o exato momento quando ele expirou. Logo depois, muitos dos que ali estavam viram quando o Cristo foi perfurado por uma lança manuseada por um soldado; outros presenciaram o momento que o corpo de Cristo foi retirado da cruz e colocado em uma sepultura; os soldados que foram postos de vigia do túmulo viram o corpo de Cristo sendo depositado no seu interior, e ali os soldados permaneceram velando até o terceiro dia; para os discípulos que viram a crucificação e sepultamento do corpo de Cristo foram três dias dolorosos e cheios de saudade, medo, frustração, desesperança, etc.

“Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta noite, todos vós me abandonareis. Pois assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão afugentadas’.” (Mateus 26:31).

Da perspectiva da humanidade entre a morte e a ressurreição de Jesus transcorreram três longos dias, mas qual era a perspectiva de Cristo enquanto esteve morto?

Teria ocorrido os eventos narrados no evangelho apócrifo de Nicodemus narrados por dois personagens ressuscitados? O que consta no evangelho apócrifo de Nicodemus[1], onde Carinus e Lenthius, filhos de Simeão, narram a chegada de Jesus no inferno onde eles estavam é algo plausível segundo as Escrituras?

Da perspectiva do Cristo enquanto esteve morto e seu corpo permaneceu três dias na sepultura, entre a Sua morte e a Sua ressurreição, não se passou um único segundo e Ele não participou de nenhum evento, quer seja no inferno ou no paraíso!

Antes de expirar, Cristo via uma grande multidão de opositores gritando injurias aos pés da cruz e seus amigos ao longe, só que, após entregar o espírito ao Pai e morrer, quando ressurgiu, Jesus abriu os olhos na solidão do túmulo que estava selado pelo lado de fora.

O corpo de Cristo permaneceu efetivamente morto por três dias e três noites no seio da terra, ou seja, inerte, sem qualquer resquício de função vital. Durante o tempo que o seu corpo permaneceu na sepultura Cristo não esteve e nem foi a lugar algum.

Na morte, o espírito de Cristo entrou na eternidade, onde espaço/tempo não existem, e ao retornar ao seu corpo já glorificado por Deus, simplesmente já havia transcorrido três longos dias.

Naqueles três dias que esteve morto, Jesus somente acessou a eternidade e retornou, como que em um piscar de olhos, e foi ressuscitado, porém, o que para Ele não se passou sequer um segundo, para a humanidade sujeita ao espaço/tempo transcorreram três longos dias.

A eternidade deve ser compreendida nos seguintes termos:

O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.” (Eclesiastes 3:15);

“Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.” (Salmos 90:4).

A eternidade é uma singularidade que não possui espaço/tempo, portanto, ao acessa-la é possível sair dela em qualquer momento da história, desde que seja permitido por Deus. Ao acessar a eternidade, Cristo não podia voltar no tempo e alterar qualquer uma das suas decisões tomadas anteriormente, mas podia avançar no tempo, e isso ocorreu: avançou três dias.

Não existe um paraíso, espaço ou sala de espera para salvos e/ou perdidos antes do destino final (salvação/perdição). A eternidade é uma singularidade que não tem espaço/tempo, de modo que, para Deus não há diferença alguma para alguém que morreu há seis mil anos, ou há dois dias ou hoje, pois ao entrar na eternidade cada indivíduo de imediato (hoje mesmo) terá um encontro com Deus para o juízo determinado.

Da perspectiva de Cristo, Ele adentrou a eternidade ao morrer, e dela saiu ao ressurgir, o que para Ele foi instantâneo. Entretanto, da perspectiva daqueles que assistiram à crucificação, passaram exatos três dias, um sinal para que efetivamente pudessem ver e confirmar que Jesus de fato morreu para então ressurgir dentre os mortos.

“Começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição.” (Atos 1:22).

Se Jesus morresse e ressurgisse à vista de todos ainda na cruz, não haveria testemunha da morte e ressurreição, e sim, de algum outro evento miraculoso, como se Jesus tivesse escapado da morte.

Mas, se Cristo permaneceu no seio da terra e esteve inerte por três dias por adentrar e sair da eternidade, como é possível Ele ter cumprido a sua palavra no mesmo dia que o ladrão morreu? Simples!

Da perspectiva do ladrão, naquele mesmo dia ele teve um encontro nos ares com Cristo glorificado, precisamente na sua vinda para arrebatar a igreja. Da perspectiva de Cristo, apesar de ter permanecido morto no seio da terra por três dias, depois aparecer aos discípulos por quarenta dias, ascender aos céus diante dos discípulos e se assentar à destra da majestade nas Alturas, Ele cumpriu a sua palavra ao ladrão conforme tinha prometido: naquele mesmo dia, pois o corpo do Cristo glorificado não está preso as amarras das leis da física.

“E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.” (João 20:26).

O ladrão na cruz e o Cristo-homem enquanto estavam vivos, ambos estavam presos no dia chamado ‘hoje’, ou seja, no tempo/espaço que regem a existência dos homens na terra. Quando Cristo ressurgiu não mais estava preso ao tempo/espaço, e pode compartilhar quarenta dias com os discípulos, e, mesmo assim, cumprir a sua promessa ao encontrar com o ladrão ressurreto e em um corpo glorioso quando da Sua vinda nos ares.

“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando das coisas concernentes ao reino de Deus.” (Atos 1:3).

Semelhantemente, no dia em que morreu, o ladrão foi despertado dentre os mortos juntamente com milhares de salvos ante a voz de comando semelhante a voz de arcanjo e a trombeta de Deus, e ele passou a estar com o Senhor.

As elucubrações humanas acerca dos eventos pós-morte segundo um viés grego/romano, como se o pós-morte envolvesse espaço e tempo não coaduna com a perspectiva bíblica, pois para Deus todos os eventos humanos passado, presente e futuro já ocorreram.

Voltar ao passado ou se deslocar ao futuro é algo que escapava a compreensão do homem da antiguidade, tanto que, só recentemente livros e filmes de ficção cientifica passaram a abordar o tema.

Na mitologia grega, Cronos, filho de Urano (Céu) e Gaia (Terra), é apresentado como uma das divindades da primeira geração de titãs, porém, os seus atributos estavam relacionados a agricultura e condições climática, e por isso ele era considerado o deus do tempo. Cronos é descrito como possuidor de poder sobre as estações, e por isso, a correlação com a agricultura, portanto, ele não tinha controle sobre o espaço/tempo.

O apóstolo Paulo em uma linha da carta aos Romanos sintetiza a narrativa do Gênesis de maneira magistral, pois deixa explícito que, para o Cristo ter a imagem que veio ao mundo, lá no Éden Adão teve que ser criado segundo a imagem que Cristo haveria de vir, ou seja, antes de vir ao mundo, o Verbo eterno estabeleceu qual seria a sua forma humana ao modelar o barro para criar Adão.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” (Romanos 5:14).

Adão foi criado segundo a figura (imagem) daquele que havia de vir, o Cristo-homem, o último Adão.

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.” (1 Coríntios 15:45).

Perceba que a má leitura do Gênesis dá azo para interpretar que Adão foi criado a imagem e semelhança do Deus invisível, sendo que no Gênesis temos Deus somente declarando o seu intento (projeto): – ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’ (Gênesis 1:26).

Ao criar o homem Deus estava implementando o seu propósito eterno estabelecido em Cristo, projeto esse que se concretiza no Cristo ressurreto, que é a expressa imagem do Deus invisível. O primeiro Adão quando foi criado não foi a conclusão do proposto por Deus: façamos o homem a nossa imagem. O homem só é feito à imagem de Deus quando Cristo ressurge dentre os mortos, e Cristo conduz muitos filhos a Deus conforme a semelhança de Deus.

“O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;” (Hebreus 1:3).

Deixando as questões de tempo e espaço de lado, certo é que para Deus não há mortos, pois para Ele todos os seres, vivos ou mortos, existem pela eternidade.

“Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos.” (Lucas 20:38).

Da perspectiva do Cristo, enquanto morto, não se passou um segundo até ressurgir, pois, ao morrer foi o mesmo que entrar na eternidade onde inexiste espaço/tempo. Vale destacar também que os eventos que se desenrolaram após a morte do ladrão naquele dia não interferiram no cumprimento da promessa ‘hoje mesmo estarás comigo no paraíso’. Nem mesmo o período que Jesus ressurreto compartilhou como os seus discípulos antes de ser assunto aos céus interferiu no que foi prometido.

A promessa de Jesus foi: ‘hoje estarás comigo no paraíso’, e o ladrão, ao morrer, naquele mesmo dia entrou na eternidade e imediatamente se apresentou a Cristo em um corpo ressurreto e passou a estar com o Cristo, o Senhor e grande Rei.

 

As partes mais baixas da terra

Nesse ponto alguém pode contra-argumentar: Se Cristo ao morrer desceu, e não subiu a Deus Pai, como Ele pode estar no paraíso? Se o ladrão encontrou Cristo nos ares após morrer, então o ladrão não foi ao paraíso, e a promessa ‘hoje estarás comigo no paraíso’ não foi cumprida.

“Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.” (João 20:17).

Aqueles que não acreditam na imortalidade da alma geralmente lançam mão do versículo acima, pois pensam que na morte há contagem de tempo que se mede em dia, de modo que para alguém que esteve morto por três dias e ainda não havia subido ao Pai não teria como cumprir a promessa de estar no paraíso com o ladrão que estava na cruz.

Já aqueles que acreditam na imortalidade da alma lançam mão do mesmo versículo para dizer que Cristo ainda não tinha subido ao Pai porque desceu ao inferno para proclamar a sua vitória.

Os imortalistas citam os versículos a seguir para questionarem: Quando Jesus desceu as partes mais baixas da terra se não foi quando esteve morto? Quando Cristo pregaria aos espíritos em prisão, se não quando esteve morto?

“Ora, isto ‘ele subiu’ que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” (Efésios 4:9).

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;” (1 Pedro 3:18-19).

Tanto os mortalistas quanto os imortalistas equivocam-se na leitura e interpretação dos textos, pois ambos posicionamentos doutrinários não deixam o texto falar por si só, antes tentam afirmar os seus pontos de vistas fazendo uso das passagens bíblicas citadas.

Um dos equívocos de interpretação dos imortalistas surge quando unem textos distintos, como a abordagem paulina aos Efésios e a abordagem de Pedro aos cristãos da dispersão, sendo que os versículos citados não tem por alvo o mesmo público alvo, não tratam do mesmo tema e nem se referem as mesmas questões. Observe!

Quando o apóstolo Paulo afirma que Jesus desceu ‘as partes mais baixas da terra’, estava interpretando o Salmo 68, verso 18:

“Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o SENHOR Deus habitasse entre eles.” (Salmos 68:18).

Antes de apresentar uma interpretação do Salmo 68, verso 18, o apóstolo Paulo estava abordando a graça de Deus manifesta segundo a medida do dom de Cristo (Efésios 4:7), e o verso 18, do Salmo 68, é apresentado como base para a afirmação do apóstolo. Em seguida, ele questiona os cristãos de Éfeso: ‘Ele subiu’ que é? Ou qual o significado do que disse o salmista ‘Tu subiste ao alto’?

Em poucas palavras, o apóstolo questiona o que a profecia do salmista revela ao dizer que o Messias concederia dons aos homens ao subir ao alto! O apóstolo Paulo explica que o único significado possível de se dizer ‘subir ao alto’, é que antes se fez necessário ao Cristo ‘descer às partes mais baixas da terra’

Para o Cristo subir ao alto com poder de conceder dons aos homens, antes teve que descer, ou seja, morrer e ser sepultado, pois foi na morte em obediência ao Pai que Cristo venceu a morte e pode livrar os que eram retidos por ela.

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.” (Hebreus 2:14-15).

Sem morrer em obediência ao Pai Cristo não teria aniquilado o adversário e não teria como livrar os que estavam sujeitos à servidão do pecado por causa da morte. Quando subiu ao alto, Cristo ressurreto foi posto a destra da Majestade nas Alturas, de posse de todo poder.

“Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja.” (Efésios 1:20-22).

Mas, uma das leituras equivocadas do verso 18, do Salmo 68 é achar que o ato de descer se refere a encarnação, quando o Verbo se despiu da divindade e se fez homem, o que é nomeado ‘introduzir’, ‘entrada’ (Hebreus 1:6; Salmo 121:8). A outra má leitura é entender que ‘as partes mais baixas da terra’ abordada pelo apóstolo Paulo ao interpretar o Salmo se refere às regiões dos mortos conforme o pensamento grego[2]/romano do Hades, limbo, purgatório, etc.

Quando o apóstolo Paulo afirma que Jesus desceu às partes baixas da terra, somente enfatizou que o corpo de Cristo desceu a campa fria, ou seja, foi sepultado e permaneceu inerte no seio da terra.

O local onde os corpos dos que morrem são colocados também é utilizado como sinônimo de ‘condenação’, vez que ao morrer, os homens seguem ao juízo:

“Aqueles que procuram a minha vida serão destruídos; irão para as profundezas da terra. (Salmos 63:9).

As ‘profundezas da terra’ se refere à sepultura, porém, a má leitura geralmente foge ou não considera a trava lógica que há no paralelismo que estruturam as poesias hebraicas.

Por causa do dogma da Igreja Católica do limbus patrum, que seria um lugar fora dos limites do céu, onde os mortos não salvos pela graça justificadora vivem em plena felicidade natural, no entanto, privados da visão beatífica de Deus, acabam conferindo um outro significado as profundezas da terra. Segundo esse dogma o limbus patrum não deve ser confundido nem com o inferno e nem com o purgatório.

Daí a ideia que os santos do Antigo Testamento permanecem conscientes neste limbus patrum, que também é designado “sheol” ou “Hades” ou “Seio de Abraão”, onde permanecem aguardando a redenção da humanidade por Cristo.

Grande parte dos imortalistas acreditam que, ao morrer, Jesus desceu a esse lugar para noticiar a sua vitória sobre o pecado e a morte, evento nomeado ‘descensus ao Hades’, quando foi concedido salvação aos santos do Antigo Testamento.

Esse pensamento católico surgiu do Credo dos Apóstolos, uma profissão de fé (credo) que data antes da quinta década d.C., e que até alguns protestantes[3] se apoiavam, que contém os seguintes termos:

Credo dos Apóstolos:

  1. Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra;
  2. E em Jesus Cristo, um só seu Filho (seu único Filho), Nosso Senhor,
  3. Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem;
  4. Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  5. Desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia;
  6. Subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
  7. De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  8. Creio no Espírito Santo,
  9. Na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos,
  10. Na remissão dos pecados,
  11. Na ressurreição da carne,
  12. Na vida eterna. Amém.

Segundo alguns estudiosos, a expressão ‘desceu ao Hades’ consta de dois credos antigos, porém, com termos diferentes. A primeira ocorrência da expressão ‘desceu ao Hades’, se dá no Credo Apostólico através da expressão latina “descendit ad inferna” (desceu aos infernos/Hades), e uma posterior, no Credo de Atanásio, com a expressão latina “descendit ad inferos” (desceu às regiões inferiores).

Resumidamente, a expressão ‘descendit ad inferna’[4] não fazia parte do Credo Apostólico, posteriormente, a expressão acabou sendo adotada em substituição a expressão ‘crucificado, morto e sepultado’.

O Credo de Atanásio foi escrito por volta do século V ou VI, e segue os mesmos traços do Credo de Aquiléia, e é possível determinar que a expressão “desceu ao Hades” substitui a expressão “sepultado”[5].

Uma mudança aparentemente inocente pareceu não causar problema à doutrina cristã durante o tempo em que a expressão “desceu ao Hades” substituía o termo “sepultado”, mas, quando as duas expressões ‘sepultado’ e ‘desceu ao Hades’ começaram a ser adotas no mesmo Credo como se fossem eventos distintos, um grande problema surgiu.

Por volta do século VII, a cláusula ‘descendit ad inferna’ surgiu em outros credos[6] como acréscimo, e não somente como substituição da ideia de que Cristo foi ‘crucificado, morto e sepultado’, e clausulas que expressavam a mesma ideia passaram a representar duas ideias: Jesus foi “crucificado, morto e sepultado” e “descendit ad inferna”.

Deste equivoco possivelmente surgiu o pensamento de que Jesus, durante o tempo que seu corpo permaneceu na sepultura, teria descido a um local chamado Hades, sem falar o disposto no evangelho apócrifo de Nicodemus.

A má leitura do texto bíblico combinada com a ideia filosófica de Platão e credos datados do primeiro século do cristianismo fez com que a explicação do apóstolo Paulo concernente aos dons concedidos aos homens na carta aos Efésios fosse combinada com outra passagem bíblica da carta do apóstolo Pedro que versa sobre ‘os espíritos em prisão’, o que deu azo a uma concepção equivocada acerca do estado dos salvos após a morte física, e sobre o Cristo quando na sepultura.

 

Os espíritos em prisão

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;” (1 Pedro 3:18-19).

O tema apresentado pelo apóstolo Paulo difere do tema abordado pelo apóstolo Pedro, vez que este exorta os cristãos a não seguirem a doutrina (temor) dos judaizantes (1 Pedro 3:14), e se resignarem em seguir o exemplo de Cristo (1 Pedro 3:18), enquanto aquele cita e explica o significado de um versículo dos Salmos para enfatizar que Cristo concedeu dons aos homens quando ascendeu ao Pai.

O apóstolo Pedro enfatiza que Cristo Jesus padeceu uma vez pelos pecados, ou seja, que Ele foi morto em obediência ao Pai. Por que o Justo padeceu pelos injustos? Para conduzi-los a Deus, através de um novo e vivo caminho consagrado pela sua carne! (Hebreus 10:20)

E como os homens são conduzidos por Cristo a Deus? Ao serem mortificados na carne, ou seja, quando são crucificados e sepultados com Cristo, e então, são vivificados pelos espirito ressurgindo com Cristo, os homens voltam à comunhão com Deus.

“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” (1 Pedro 2:24).

‘Padecer uma vez pelos pecados’ é o mesmo que ‘levar em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro’, e ao tornar-se participante da carne e do sangue, o homem é morto para o pecado e passa a viver para Deus. Esses eventos são nomeados mortificação (θανατωθεὶς) e vivificação (ζωοποιηθεὶς).

Quando Adão pecou ocorreram dois eventos: morreu para Deus e passou a viver para o pecado, e agora, através de Cristo, o homem morre para o pecado e passa a viver para Deus. É impossível estar vivo para Deus e para o pecado ao mesmo tempo, o que expressa a máxima dos dois senhores.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Mateus 6:24).

Qual espírito vivifica? A mensagem do evangelho é o espírito que vivifica, pois, as palavras de Cristo são espírito e vida, e por isso mesmo Ele é espírito vivificante!

“O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida.” (João 6:63);

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.” (1 Coríntios 15:45).

A parte ‘b’ do versículo ‘mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo espírito’ soa mais como um aposto explicativo demonstrando como os homens são levados (conduzidos) a Deus, do que narrando como a morte de Cristo se deu, vez que, durante a carta o apóstolo Pedro já havia destacado que o corpo de Cristo foi crucificado no madeiro.

“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” (1 Pedro 2:24).

Geralmente interpretes aplicam à parte ‘b’ do versículo a pessoa de Cristo por questões gramaticais, vez que a parte ‘a’ do versículo está no singular e a parte ‘b’ também está no singular, mas se esquecem de considerar que Cristo jamais foi sujeito ao pecado de modo que demandasse ser ‘mortificado’ ou ‘vivificado’, termos utilizados com frequência maior quando o sentido é figurado. Geralmente emprega-se os termos morto e ressurgir com relação a Cristo no seu sentido denotativo.

O homem é vivificado pelo espírito, ou seja, pela palavra de Deus, e foi através deste mesmo ‘espírito’ que Jesus pregou aos espíritos em prisão.

Por não compreender a exposição do apóstolo Paulo com relação a Cristo ter decido as partes mais baixas da terra, ou seja, a sepultura, muitos interpretes entendem que os espíritos em prisão seriam pessoas presas no inferno, e complementam o equívoco considerando que o contexto remete ao que Jesus fez durante o tempo que o seu corpo permaneceu no sepulcro.

Como Cristo é espírito vivificante e suas palavras são espírito e vida, é nesse espírito (evangelho, boas novas, querigma, mensagem) que Ele foi e pregou aos espíritos em prisão.

“EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios.” (Isaías 42:1).

O verbo grego κηρύσσω traduzido por pregar em o significado de anunciar (proclamar), pregar (anunciar) uma mensagem (doutrina, fé) publicamente e com convicção (persuasão) por um arauto enviado por Deus.

Quem seriam os ‘espírito em prisão’? Novamente é um equívoco presumir que os espíritos em prisão mencionados pelo apóstolo Pedro se trata de seres incorpóreos, em cadeias, que pecaram antes do diluvio e que Jesus foi lhes fazer uma visita no lugar do seu cativeiro para entregar uma notícia.

O que muitos teólogos dizem acerca do texto ao longo dos séculos não passa de especulação, pois os espíritos em prisão são os judeus, que tropeçaram, foram enlaçados e presos, e há muito haviam sido destinados para esse juízo.

“E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados.” (1 Pedro 2:8);

“E muitos entre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados, e presos.” (Isaías 8:15);

“Porventura envergonham-se de cometerem abominação? Não; de maneira nenhuma se envergonham, nem sabem que coisa é envergonhar-se; portanto cairão entre os que caem e tropeçarão no tempo em que eu os visitar, diz o Senhor.” (Jeremias 8:12);

“Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui.” (Isaías 42:22).

Por que seriam enlaçados e presos? Justamente porque Cristo seria a pedra de tropeço e rocha de escândalo as duas casas de Israel (Isaías 8:14). Cristo foi enviado aos filhos de Jacó como o mensageiro do Senhor, cego e mudo (Isaías 42:19), e como não deram credito a pregação do mensageiro (Isaias 53:1), a indignação de Deus permaneceu sobre eles (Isaías 42:24).

É através do espírito que vivifica, a mensagem do evangelho, que Cristo foi e pregou as ovelhas perdidas da casa de Israel tendo por objetivo o anunciado por Isaías:

“Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas.” (Isaías 42:7).

O ápice da exposição do apóstolo Pedro tem por foco os ‘espíritos em prisão’, mas o desenvolvimento da exposição teve início no capítulo 2, verso 7, ao apontar os filhos de Israel como ‘rebeldes’, e por isso estavam destinados a tropeçarem, ou seja, estavam enlaçados e presos.

A exortação do apóstolo tendo por base o anunciado pelos profetas que anunciaram de antemão que os filhos de Israel rejeitariam a Pedra Viva (1 Pedro 2:4), por isso foram confundidos e tropeçaram (1 Pedro 2:6-7), e destinados a ira como consequência da desobediência (Isaías 8:15).

“Por que nos assentamos ainda? Juntai-vos e entremos nas cidades fortificadas, e ali pereçamos; pois já o Senhor nosso Deus nos destinou a perecer e nos deu a beber água de fel; porquanto pecamos contra o Senhor.” (Jeremias 8:14).

Ao destacar que os cristãos eram como ‘ovelhas desgarradas’ (1 Pedro 2:25), o apóstolo Pedro também destacou o papel desempenhado por Cristo que veio em procura das ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 15:24; Ezequiel 34:6 e 11).

As ovelhas se perderam por causa da desobediência, e estavam enlaçadas e presas, e somente o Cristo poderia libertá-las mediante a proclamação do evangelho, o espírito do Senhor que estava sobre Ele.

Após abordar a condição das ovelhas desgarradas que foram alcançadas pelo Bom Pastor, o apóstolo Pedro no capítulo seguinte volta novamente ao texto de Isaías 8, agora destacando o dever de não se submeterem ao temor (doutrina) ensinado pelos filhos de Israel, antes deveriam santificar o Cristo como Senhor em seus corações (1 Pedro 3:14-15), pois a desobediência dos filhos de Israel fez com que fossem enlaçados e presos (Isaías 8:15).

Cristo anunciou que foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel:

“E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mateus 15:24).

Em suma, Cristo pregou aos ‘espíritos em prisão’, ou seja, às ovelhas perdidas da casa de Israel, que em outro tempo foram rebeldes, e por isso mesmo, foram destinadas a tropeçarem na pedra de tropeço.

Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua lei? Por isso derramou sobre eles a indignação da sua ira, e a força da guerra, e lhes pôs labaredas em redor; porém nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração.” (Isaias 42:24-25);

“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos. Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, E em tropeço, por sua retribuição; Escureçam-se-lhes os olhos para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas. Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação.” (Romanos 11:7-11).

Os filhos de Israel são os ‘espíritos em prisão’ que outrora foram desobedientes (rebeldes), e Deus os colocou em lugares escorregadios e escuro.

“Como, pois, dizeis: Nós somos sábios, e a lei do SENHOR está conosco? Eis que em vão tem trabalhado a falsa pena dos escribas. Os sábios são envergonhados, espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria, pois, têm eles?” (Jeremias 8:8-9);

“Portanto o seu caminho lhes será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados, e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, no ano da sua visitação, diz o SENHOR.” (Jeremias 23:12).

A abordagem do apóstolo Pedro segue o exposto no capítulo 8, do livro de Isaías, mesmo quadro desenhado pelo salmista:

“Tal como a que se assenta nas trevas e sombra da morte, presa em aflição e em ferro; Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo. Portanto, lhes abateu o coração com trabalho; tropeçaram, e não houve quem os ajudasse. Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões.” (Salmos 107:10-14).

Os ‘espíritos em prisão’ não se trata de um ‘seleto’ grupo de demônios muito violentos que estão sendo mantidos em cativeiro, como pensam alguns teólogos. Ademais, é um erro entender que o pecado dos espíritos em prisão se refere ao evento de Gênesis 6, como se os espíritos em prisão fossem os “filhos de Deus” que, segundo um absurdo de concepção, se acasalaram com as “filhas dos homens”.

A referência que o apóstolo Pedro faz ao pregoeiro da justiça, Noé, que ocorre logo em seguida, tem em vista a necessidade de os cristãos terem boa consciência (certeza de aceitação) para com Deus pela ressurreição de Cristo, e não uma referência ao tempo ou evento que os ‘espíritos em prisão’ foram rebeldes. (1 Pedro 3:16).

Como os cristãos deveriam ter um bom porte em Cristo para confundir os que falavam mal dos cristãos e do evangelho, o apóstolo Pedro destaca que, enquanto a arca estava sendo preparada se evidência a longanimidade de Deus (1 Pedro 3:20).

Através da arca se salvaram oito almas pela água, o que prefigura o batismo, de modo que o que agora se busca não é o despojar da imundice da carne, e sim, uma boa consciência promovida pela ressurreição de Cristo (1 Pedro 3:21).

Neste ponto, o apóstolo Pedro destaca que não estava se referindo ao batismo que tem por pressuposto o despojamento da imundície da carne, que é tratado pelo apóstolo Paulo como a circuncisão de Cristo.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo;” (Colossenses 2:11).

As oito almas protegidas do diluvio através da arca demonstra que o mundo antigo não foi poupado por Deus, mas poucos foram salvos pela água, o que representa o batismo, que leva a ressurreição de Jesus Cristo, o que estabelece a arca como figura.

A figura da arca deve ser vista nesse prisma:

“Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem. Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo?” (2 Coríntios 2:16).

As águas do diluvio para os que se perderam era morte, mas as mesmas águas, por causa da arca, salvação para a vida, de modo que, enquanto tivessem o mesmo sentimento que Cristo, teriam uma profissão (indagação) de boa consciência. Quem se arma do pensamento exposto no verso 1, do capítulo 4, de primeira Pedro tem boa consciência diante de Deus.

“… quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo;” (1 Pedro 3:20-21);

“Ora, pois, já que Cristo padeceu por nós na carne, armai-vos também vós com este mesmo pensamento, que aquele que padeceu na carne já cessou do pecado; Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus.” (1 Pedro 4:1-2).

Agora é possível compreender porque o apóstolo Pedro enfatiza que o evangelho foi pregado aos mortos:

“Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito;” (1 Pedro 4:6).

Os ‘mortos evangelizados’ (νεκροῖς εὐηγγελίσθη) não são espíritos de anjos caídos ou de pessoas que passaram para a eternidade, antes se refere aos seguidores do judaísmo ou a qualquer que não crê em Cristo segundo as Escrituras.

Na passagem o apóstolo está destacando mortos que não foram mortos na guerra e nem foram mortos à espada, e sim a condição deles diante de Deus.

“PESO do vale da visão. Que tens agora, pois que com todos os teus subiste aos telhados? Tu, cheia de clamores, cidade turbulenta, cidade alegre, os teus mortos não foram mortos à espada, nem morreram na guerra.” (Isaias 22:1-2).

Os filhos de Israel são descritos como mortos porque até a maldade deles ser expiada seriam mortos, pois foram chamados a se arrependerem, mas zombaram dizendo: comamos e bebamos, porque amanhã morreremos (Isaias 22:12-13).

“Mas o SENHOR dos Exércitos revelou-se aos meus ouvidos, dizendo: Certamente esta maldade não vos será expiada até que morrais, diz o Senhor DEUS dos Exércitos.” (Isaias 22:14).

Nesse sentido, na segunda epistola, o apóstolo diz:

“Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção,” (2 Pedro 2:12).

Os discípulos eram mortos que ouviram o evangelho e passam a viver segundo o evangelho (espírito), embora fossem julgados segundo os homens na carne, seus concidadãos. Diuturnamente Jesus era julgado pelos seus concidadãos, o que não foi diferente com o apóstolo Paulo.

“Rogo-vos, pois, que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns, que nos julgam, como se andássemos segundo a carne.” (2 Coríntios 10:2).

Os falsos doutores (2 Pedro 2:1), são os animais irracionais que foram destinados a serem presos e mortos, e por serem desobedientes, perecerão na sua corrupção (1 Pedro 2:8).

Os ‘anjos que pecaram’ e não foram perdoados, sendo lançados no inferno e estão reservados para o dia do juízo, refere-se aos falsos profetas em Israel. Os profetas da Antiga Aliança também eram designados ἀγγέλων (anjos), de modo que o apóstolo Pedro não estava falando de serem celestiais caídos, ou seja, de demônios.

Lembrando que o inferno não é um local destinados aos ímpios após a morte, e que só após a ressurreição dos perdidos haverá a segunda morte, quando a morte e a sepultura serão lançados no lago de fogo inaugurado pelo diabo.

“E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.” (Apocalipse 20:14);

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.” (Apocalipse 20:10).

A abordagem do apóstolo Pedro é a mesma do escritor aos Hebreus:

“Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição,” (Hebreus 2:2).

Os profetas de Deus são mensageiros (anjos) e ministros.

“Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador.” (Salmos 104:4).

Mas, quando um mensageiro e ministro não faz direito o seu ofício, resta a morte.

“Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá.” (Deuteronômio 18:20).

Vale destacar que o apóstolo Pedro nomeou os profetas de anjos, evidenciando que os profetas questionavam acerca da salvação que anunciavam (1 Pedro 1:10), pois queriam saber o tempo e a ocasião que se daria os eventos que anunciavam. Mas, acabaram sabendo que aquelas coisas anunciadas não eram para eles (1 Pedro 1:12), as coisas que desejaram compreender (atentar).

Ao ler a epístola de Pedro, o interprete e leitor não pode perder de vista o livro do profeta Isaias e a forma como ele faz referência aos transgressores de Israel, que em determinados versículos são apontados como mortos em cadeias, prisão.

 

Desfazendo equívocos acerca da morte de Cristo

Quando falamos da eternidade, falamos de uma realidade que escapa a nossa compreensão, uma realidade que presente, passado e futuro se tornam o já, o agora, como se lê:

O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.” (Eclesiastes 3:15);

“Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.” (Salmos 90:4).

O maior entrave para compreender o evento da morte e ressurreição está em considerar que por Jesus permanecer morto por três dias, e o seu corpo depositado em um túmulo, que Ele esteve ou se deslocou a algum lugar, que para alguns seria o Paraíso, outros o Hades, outros o Sheol, etc.

Neste ponto, antes de prosseguirmos, destaco que a verdade aqui exposta não possui qualquer relação com a doutrina do mortalismo, comumente denominada doutrina do sono da alma.

Com isso quero enfatizar que Cristo não ficou dormindo, ou em animação suspensa por três dias, antes digo que ao morrer Ele entrou na eternidade e, em seguida, foi retirado dela por Deus, porém, em função do sinal do profeta Jonas, o que permitiu aos homens distinguirem que Jesus de fato morreu, o que foi instantâneo na eternidade, para os homens transcorreram três dias.

Observe que o Salmo 16, verso 10, e a citação que o apóstolo Pedro faz não trata da doutrina da imortalidade da alma, e sim, da doutrina da ressurreição do Cristo, o Filho de Davi.

“Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção.” (Atos 2:31).

O corpo de Cristo quando Ele esteve morto esteve na sepultura, e tão somente o seu corpo. O espírito de Cristo, o que inclui a sua alma, adentrou à eternidade, singularidade que não há espaço e nem tempo, voltando logo em seguida ao seu corpo glorificado, porém, neste mundo já havia se passado três dias. Ao adentrar a eternidade o espírito de Cristo não subiu ao Pai e nem esteve no Sheol ou hades ou paraíso.

Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, o seu corpo foi tirado do Sheol, a cova da corrupção (Isaías 38:17), que todos os homens estão sujeitos, porém, o seu espírito voltou da eternidade para o tempo dos homens.

Há quem argumenta que a alma de Jesus foi retirada do Sheol, e não do paraíso, apontando para Atos 2, verso 27.

O erro de tal interpretação está em considerar a alma como um elemento independente do espírito, e que pode ser dissociada do espirito quando da morte.

Na eternidade ou no mundo dos homens a alma não tem existência própria, antes é uma forma de se referir ao homem na sua totalidade: corpo, alma e espírito.

Por causa de várias concepções confusas sobre os elementos constitutivos do homem, se faz necessário esclarecer que:

  1. corpo – é elemento constituído de matéria orgânica criado a partir do pó da terra (tangível, visível e espaço/temporal), e por isso o homem é denominado natural, terreno e alma vivente, que em função da queda está sujeito à morte (termino das funções vitais);
  2. espírito – elemento imaterial que procede de Deus (Pai dos espíritos) quando todos os seres são criados, quer sejam homens ou seres angelicais, e que proporciona existência e imortalidade;
  3. alma – elemento imaterial que surge quando o espírito é incorporado, que em suma, trata-se da personalidade do indivíduo, ou do espírito.

Todos os seres que possuem consciência possuem um espírito, mas diferentemente dos anjos, a personalidade do homem só surge e se desenvolve quando há a união entre o espírito e o corpo, portanto, esses dois elementos jamais serão dissociados, mesmo após a morte.

Quando Adão foi criado, Deus formou um corpo do pó da terra e soprou sobre o homem o folego da vida, dando-lhe um espírito, e daquele ponto em diante, surgiu uma personalidade própria ao espírito, e o homem foi denominado alma vivente.

Um espírito sem corpo não é homem, e um corpo sem espírito não possui existência, mas um espírito unido a um corpo traz a existência um homem com personalidade própria e única, tornando-se, por assim dizer, uma alma.

Sem se imiscuir no pensamento platônico da tricotomia da alma, que divide a psique do homem em aspectos, como se três naturezas distintas interagissem, não é aceitável, se considerarmos a Bíblia, a concepção de que a alma é o elemento inteligente que anima o corpo, ou seja, através de seus membros e sentidos explora, se expressar e se comunicar com o mundo exterior e, o espírito, o princípio ativo de uma vida espiritual, religiosa e imortal que possibilita a comunicação entre Deus e o homem.

Os anjos quando criados vieram a existência cada qual com uma identidade única, porém, espíritos. O homem, por sua vez, ao ser encarnado, os espíritos saem de Deus todos igual na essência, mas quando são incorporados na concepção, cada espirito desenvolve a sua identidade e personalidade, o que proporciona individualidade ao espírito, ao que se dá o nome de alma.

‘Alma’ não se refere a um elemento imaterial do homem, e sim, a plenitude do ser como indivíduo, como expresso por Moisés acerca dos filhos de Jacó quando entraram no Egito.

“E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas almas. Todas as almas da casa de Jacó, que vieram ao Egito, eram setenta.” (Gênesis 46:27).

Ora, nasceram no Egito duas pessoas, ou seja, indivíduos com corpo, alma e espírito, pois nasceram dois seres, pessoas com vínculo sanguíneo, um corpo de matéria semelhantes e com psique distintas que os tornam indivíduos.

Quando Jesus morreu, o seu espírito e alma se separaram do corpo, porém, a alma não foi dissociada do espírito. Na ressurreição, o espírito e a alma de Cristo voltaram da eternidade, e não do Hades, ou do limbo, ou do paraíso, ou do purgatório, e passou a habitar um novo tabernáculo incorruptível.

É certo que na ressurreição o Senhor Jesus Cristo não foi tirado do paraíso, mas isto não significa que o corpo e a alma de Cristo estavam na sepultura, a cova da corrupção (Isaias 38:17). Quando o Salmo afirma que a carne de Cristo repousaria em esperança fez referência ao corpo de Cristo na sepultura (Atos 2:26), e que sua alma não seria deixada na morte. Alma no verso diz da totalidade do ser do Cristo (espírito e alma) que foi morto e sepultado (corpo), e sepultura remente à morte como corrupção.

Uma cova não comporta a alma, e sim, o corpo. A ideia de ‘não ser deixada a alma na morte’ engloba o corpo, a alma e o espírito, ou seja, o Filho de Deus ressurreto.

A má leitura decorre de importar o significado atribuído a uma palavra em outro texto e em outro contexto completamente diferente para interpretar um outro texto. Por Ex.: Com relação a cidade de Cafarnaum Jesus vaticinou que ela seria abatida até o Hades, ou seja, perderia o seu esplendor, que é não se elevar às alturas (céus).

“E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.” (Mateus 11:23).

Há pensadores que afirmam que a alma e o corpo de Cristo foram deixados na sepultura, e alegam que o Hades (regiões inferiores da terra) é apresentado em oposição ao paraíso, mas tal pensamento não é o confirmado pelo texto de Mateus 11, verso 23.

O termo Sheol foi aplicado a Cafarnaum porque uma cidade quando é destruída é deitada no pó da terra, diferente de uma cidade que cresce em exuberância, que se eleva as alturas (céu), tanto que Sodoma é inclusa no texto como exemplo de destruição. O pior é tomar o termo céu do texto como se fosse o paraíso para contratar com o sheol (hades), sendo que o texto não permite essa leitura.

Certo é que existencialmente Jesus não esteve em um local designado paraíso nos três dias que esteve no seio da terra e, nem a alma dele esteve no Sheol, no sentido de regiões inferiores, como Hades, limbo, purgatório ou paraíso, como se afirma o evangelho apócrifo de Nicodemus.

Isto posto, embora Cristo durante o tempo que permaneceu na sua morte não tenha ido a local algum, em especial ao lugar chamado paraíso, certo é que a promessa feita ao ladrão foi cumprida, pois naquele mesmo dia da promessa o ladrão adentrou a eternidade em um corpo transformado e se encontrou com Cristo nos ares juntamente com os demais membros da igreja.

O paraíso (παραδείσῳ) que Jesus fez referência não diz de um lugar semelhante ao Éden, antes descreve o reino celestial de Cristo.

“E o SENHOR me livrará de toda a má obra, e guardar-me-á para o seu reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre. Amém.” (2 Timóteo 4:18).

Lembrando que o ladrão pediu para Jesus se lembrar dele quando estivesse no seu reino, e a resposta de Cristo foi positiva, e o termo traduzido por ‘paraíso’ somente descreve a bem-aventurança do reino celestial de Cristo, a casa do Pai, o lugar preparado para os salvos.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” (João 14:2).

A interpretação tanto dos imortalistas quanto dos que afirmam a mortalidade da alma com relação a promessa de Jesus restam equivocadas, pois estes procuram uma solução na gramática introduzindo uma virgula para mudar o sentido do texto, e àqueles, às vezes, para dar uma resposta lançam mão da onipresença do Cristo ressurreto.

Imortalistas afirmam que a passagem de João 20, verso 17, indicaria que somente a alma de Jesus subiu ao Pai, e o que Jesus disse para Maria Madalena de ser interpretado que daquele momento em diante, Jesus subiria ao Pai completo: corpo e alma. Os que creem na morte da alma, por sua vez, afirmam que o corpo e a alma de Cristo ficaram no seio da terra, no chamado sono da alma.

Ambos os posicionamentos restam equivocados, pois espirito e alma não se dissociam na morte, sendo certo que se a teoria da alma no Sheol fosse verdadeira, o espírito teria que estar no seio da terra também, ou se a alma de Jesus tivesse ido a algum outro lugar, o espirito também teria que ir.

Outro ponto a esclarecer é o fato de Cristo ter entregado o espírito ao Pai.

Jesus falou em alto e bom tom para os que estivessem ao pé da cruz pudessem ouvir que Ele estava entregando o espírito ao Pai.

“E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou.” (Lucas 23:46).

Assim foi feito para que aqueles que assistiam soubessem que as Escrituras estavam se cumprindo n’Ele.

“Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade.” (Salmos 31:5).

Quem se lembrasse do Salmo veria o cumprimento das Escrituras e o cuidado de Deus para com o seu servo: O senhor Deus da verdade redimiria o seu Servo.

Na essência a fala de Jesus é para indicar o cumprimento das Escrituras, assim como fez com o verso 1, do Salmo 22, porém, muitos buscam ocasião no texto para comprovarem seus posicionamentos teológicos.

O ‘entregar o espírito’ não diz de subir à presença do Pai, antes evidencia que o Cristo estaria protegido pelo Pai segundo a sua promessa: não deixar que o corpo Cristo visse corrupção e nem o seu ser fosse deixado na morte.

O espírito diz do ser consciente e imortal e, a alma, está ligada à personalidade do espírito, o que o torna distinto dos demais espíritos dos homens. Em relação a Cristo, o Verbo eterno encarnado, o fato de o espírito ser consciente e imortal e ser entregue ao Pai, não depõe contra o fato de que Cristo não ter subido ao Pai enquanto na morte.

É uma conclusão precipitada entender que ao entregar o espírito ao Pai, Cristo deveria subir imediatamente à presença de Deus.

Todos quantos morrem, de imediato se apresentam diante de Deus, tantos salvos quantos perdidos, pois entram na eternidade e participam do mesmo evento. Com relação aos eventos após a morte, os salvos em Cristo ressurgem e encontram com Cristo nos ares, os salvos da Antiga Aliança ressurgem antes do milênio e os perdidos se apresentam diante do Grande Trono Branco.

Agora, aqueles que ressurgiram dentre os mortos e voltaram a morrer, como foi o caso de Lázaro, irmão de Marta e Maria, ou o caso de Cristo que ressurgiu e ascendeu aos céus, na morte entraram na eternidade e de lá retornaram. Nesse período o tempo e o espaço inexistiram para eles, e ao serem ressuscitados, não há o que se falar em questões como consciência, estadia, deslocamento ou pregação.

Sob o argumento de que consideram o contexto, especificamente com relação ao pedido do ladrão, ‘lembra-te de mim quando vieres no teu reino’, os mortalistas argumentam que Cristo estava somente assegurando que não haveria de esquecê-lo, e por isso, garantiu naquele dia que um dia o ladrão estaria com Cristo no paraíso.

Neste aspecto surge uma teologia apoiada nas conjecturas do ladrão que formulou um pedido. Seria o mesmo que entender que basta pedir a Jesus que Ele concederá onde se assentar em seu reino.

“E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino.” (Mateus 20:21).

A passagem em que a mãe dos filhos de Zebedeu fez esse pedido foi esclarecido por Cristo, pois havia tempo para argumentação, diferente do pedido do ladrão na cruz, mas ambos os pedidos não servem para apoio doutrinário.

O ladrão acabara de ter um encontro com Cristo e desconhecia questões doutrinárias acerca da salvação, portanto, o ladrão não sabia se iria ao céu imediatamente após a pena capital, por isso Ele faz referência ao reino, vez que estava diante do rei dos judeus.

O ladrão nada sabia, antes expressou a sua confiança em Cristo como Senhor pedindo para ser lembrado quando entrasse no seu reino.

O ladrão desconhecia se iria ao céu imediatamente ou se iria ao paraíso na segunda volta de Cristo, pois a segunda vida é para os judeus, e a vinda de Cristo para igreja, evento que ocorrerá primeiro que aquele.

Em suma, o ladrão não ficou inconsciente, não esteve adormecido e nem a alma dele morreu. De outra banda, o ladrão salvo também não ficou aguardando o cumprimento da promessa no limbo, hades, sheol, purgatório, paraíso, etc. O paraíso não deve ser pensado em termos de um lugar como o foi o Éden, e sim, na bem-aventurança de compartilhar da presença de Deus.

Como crente em Cristo, a promessa de Cristo ao ladrão está relacionada ao seu corpo, a igreja, um reino celestial, e não com relação ao povo de Israel, que é um reino terreno.

O argumento de que os ladrões crucificados ao lado direito e esquerdo de Cristo não morreram no mesmo dia para evidenciar a possibilidade de cumprimento da promessa naquele mesmo dia pautado somente em evidências históricas, e não com base no que está escrito, não se sustem diante da narrativa do apóstolo João:

“Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas.” (João 19:31-33).

Eventos genéricos de evidencias históricas não atrela o evento em destaque, de modo que, mesmo que outros crucificados permanecessem dias e dias pendurado no madeiro, com relação a Cristo e os dois ladrões, para que os corpos não ficassem na cruz no dia do sábado, os judeus rogaram a Pilatos para que as pernas dos três crucificados fossem quebradas e que os corpos fossem retirados da cruz.

Efetivamente os judeus buscaram pôr fim a vida dos três naquele mesmo dia, pois a empreitada deles tinha viés político e religioso.

Evidências históricas de como alguns pais da igreja verteram o grego koine, sendo eles imortalistas ou mortalista, não determinam a leitura e interpretação, pois a única autoridade é a das Escrituras, firmado nos profetas e apóstolos.

Utilizar um único texto para discutir a imortalidade ou a mortalidade da alma é temerário, sendo que o foco do texto não é esse, pois o que foi registrado pelo evangelista Lucas tem o condão somente de destacar o cumprimento das Escrituras.

Uma tradução literal também não é efetiva diante de algumas peculiaridades da língua grega antiga. Traduzir palavra por palavra auxilia a dirimir pontos na leitura, mas não determina o sentido exato do texto, como se observa:

καὶ = \ εἶπεν = disse \ αὐτῷ = a ele \ Ἀμήν = amém \ σοι = a ti \ λέγω = digo \ σήμερον = hoje \ μετ᾿ = depois ou comigo \ ἐμοῦ = de mim \ ἔσῃ = serás \ ἐν = em \ τῷ = o \ παραδείσῳ = paraíso.

Diante do pedido do ladrão, Jesus prometeu que ambos estariam no paraíso, Cristo como Senhor, e o ladrão, como súdito. O ladrão não precisava temer a morte, pois estaria e/ou existiria com Cristo no paraíso.

Do ponto de vista gramatical[7] há argumentos mil para colocar uma virgula depois do adverbio de tempo ‘hoje’, da mesma forma que há outros tantos argumentos para não colocar uma virgula depois do adverbio hoje, mas tal decisão não pode ficar a cargo de uma tendência doutrinária.

Certo é que qualquer que no tempo presente partir para a eternidade com Cristo, hoje mesmo estará com Ele, e não precederá outros que anteriormente morreram em Cristo ou aqueles que estiverem vivos na vinda de Cristo precederão os que morreram.

A Bíblia é clara ao relatar que Jesus estabelecerá o seu reino na terra, e por isso mesmo Ele é designado o Filho de Davi. Essa é uma promessa futura e tem os judeus como os destinatários de tal promessa.

Mas, com relação ao ladrão na cruz que creu em Cristo, a promessa é superior, pois ele passou a fazer parte da igreja, o corpo de Cristo. A promessa para a igreja se cumpre de dois modos: no momento que o cristão passa para a eternidade, ou no momento do arrebatamento da igreja, portanto, o cumprimento da promessa para o ladrão foi imediato.

As pernas de Cristo não foram quebradas enquanto estava na cruz pelo fato dele ter morrido rápido, e após o soldado confirmar a morte o trespassando com uma lança, e assim, cumpriu-se as Escrituras.

O motivo dos algozes não é o mesmo estabelecido pelas Escrituras, então, as Escrituras não deve ser interpretada em cima da argumentação daqueles homens, e sim, com base no pressuposto apresentado pelo escritor do evangelho.

“Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado.” (João 19:36).

O que foi escrito para demonstrar o cumprimento das Escrituras, imortalistas interpretam como entrave ao cumprimento da promessa, como se o cumprimento da promessa estivesse atrelado ao futuro, e não à eternidade, onde se dará o reino celestial.

Jesus ter ressuscitado ao terceiro dia e ainda não ter subido ao Pai é apresentado como obstes ao cumprimento da promessa, mas o cumprimento da promessa não estava vinculado ao dia da morte e ressurreição de Cristo, e sim, ao dia em que o ladrão morreu. Naquele mesmo dia o ladrão adentrou a eternidade e se deparou como miríades de salvos em Cristo ressurretos, portanto, no reino celestial de Cristo, o paraíso.

Mas, como é possível se o ladrão morreu e Jesus permaneceu três dias no seio da terra? A promessa se cumpriu na pessoa do Cristo ressurreto quando da sua volta em glória para buscar a sua igreja, e não nos dias entre a sua morte e ressurreição. Se faz necessário considerar que o corpo ressurreto de Cristo não está sujeito as leis da física, portanto, espaço e tempo não o impedem de nada.

Da nossa perspectiva, como o Cristo ainda não voltou para buscar a igreja, Ele ainda está assentado à destra da majestade nas Alturas, aguardando quando o Pai lhe entregará o reino.

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.” (Salmo 110:1).

Cristo não poderia cumprir a sua promessa enquanto assentado à mão direita de Deus, e sim, quando da sua vinda, porém, se não conseguem divisar a diferença entre a vinda de Cristo e o estabelecimento do seu reino, a interpretação sempre restará equivocada.

“CONJURO-TE, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino,” (2 Timóteo 4:1).

Além do mais, enquanto o corpo do Senhor Jesus permaneceu no túmulo, o seu espírito não foi aos infernos, ou hades, ou limbo, ou purgatório, etc., pregar aos anjos caídos. Lembrando que o inferno bíblico, e não o grego, não possui um senhor e não diz de um reino que os demônios exercem domínio.

Quem pensa que o diabo ou satanás possui um reino no qual exerce domínio e se ocupa em atormentar os condenados está equivocado, pois esse é o inferno segundo os gregos.

Geralmente o inferno é apresentado em conexão com a morte, pois a morte vincula o homem ao inferno, que em última instância é a sepultura.

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (1 Coríntios 15:55);

“E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno.” (Apocalipse 1:18).

Cristo detém poder sobre a morte, pois Ele concede vida, e por isso mesmo, a sepultura não é obstáculo para quem dá a vida.

“E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras.” (Apocalipse 20:13).

O ‘mar’ no contexto do verso acima dita o significado do termo ‘inferno’, ou seja, sepultura, demonstrando que mar e terra darão conta dos mortos para serem julgados segundo as suas obras.

Embora inexista ‘inferno’ como contraponto a ideia de paraíso, vez que este último também não existe, não se pode esquecer a existência do chamado ‘lago de fogo’ que será inaugurado pela besta e o falso profeta (Apocalipse 19:20), que posteriormente recepcionará o diabo (Apocalipse 20:10), e por fim, abrigará também a morte e o inferno (Apocalipse 20:14)

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.” (Apocalipse 20:10).

Não se deve presumir que o ladrão esperava ou não ser atendido por Cristo naquele mesmo dia ou no futuro, pois ele não dispunha de informações precisas acerca dos bens futuros.

O que se verifica no texto é que ao ver que estavam crucificando alguém ao seu lado com uma placa sobre a cabeça escrita ‘Este é o Rei dos Judeus’, em grego, romano e hebraico, o ladrão na cruz percebeu que Cristo nada havia feito que merecesse ser crucificado, momento que é feito o pedido (Lucas 23:42).

Vale destacar novamente que, interpretar as Escrituras a partir da solicitação do ladrão é o mesmo que interpretar as Escrituras a partir do pedido dos dois filhos de Zebedeu, que não sabiam o que estavam pedindo e que não cometia a Cristo conceder (Marcos 10:37). Se ambos não sabiam o que pediam, também não sabiam nada acerca da glória de Cristo.

O pedido: – ‘Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino’ é um rogo por misericórdia, pois o ladrão não sabia se Cristo iria morrer naquele dia ou se iria operar um milagre como requisitavam os opositores de Cristo ao pé da cruz.

Mas, a resposta de Jesus: “E disse a ele: Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso.”, é uma promessa que estaria com o ladrão quando no seu reino, o paraíso, o que ocorreria naquele dia.

Jesus cumpriu a promessa ao ladrão se ele não foi ao paraíso naquele dia por estar no seio da terra? A questão não é o cristo-homem que foi morto ter ido naquela sexta-feira ao paraíso, e sim, Ele em gloria vindo no seu reino, de posse de um corpo glorioso, e o ladrão naquele mesmo dia foi ao encontro de Jesus.

É o ladrão que naquele mesmo dia foi ao encontro de Jesus em gloria voltado em poder e glória para buscar o seu corpo a igreja. Agora, quem pensa que Jesus teve que ir na noite que morreu ao encontro do ladrão para cumprir a sua promessa acabará fazendo uma má leitura.

“E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu reino! Jesus respondeu-lhe: em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.” (Lucas 23:42-43).

A resposta de Jesus trabalha os elementos da pergunta do malfeitor: quando estiveres no teu reino, Jesus respondeu: hoje! Mas, não era Jesus que iria até o ladrão, antes o ladrão seria ressuscitado e chamado para estar com Cristo nos ares naquele mesmo dia!

Qualquer cristão que parte hoje para a eternidade, hoje mesmo será ressurgirá dentre os mortos, porque basta fechar os olhos na morte que abrirá os olhos em um corpo glorioso ouvido o altissonante som da voz de comando no arrebatamento da igreja.

 

[1] https://www.interfaith.org/christianity/apocrypha-nicodemus/

[2] “Quanto às outras almas, terminada a primeira vida, passam por um julgamento. Umas vão para lugares de penitência, abaixo da terra, para sofrerem o castigo; outras sobem, por sentença, a um lugar do céu onde desfrutam as recompensas das virtudes que praticaram na vida terrestre. No milésimo ano, cada alma destas duas espécies tira a sorte e escolhe uma segunda vida, obtendo o que merece! Assim, uma alma humana pode entrar em corpo de animal, e a alma de um animal pode ir animar um corpo de homem, desde que já uma vez tenha sido homem” Platão, Fédon.

[3] “Mas, além do Credo, devemos buscar uma exposição mais segura da descida de Cristo ao inferno: e a Palavra de Deus nos fornece uma não somente piedosa e santa, mas repleta de excelente consolo. Nada teria sido feito se Cristo tivesse suportado somente a morte corpórea. A fim de Se interpor entre nós e a ira de Deus e satisfazer o Seu juízo justo, era necessário que Ele sentisse o peso da vingança divina. Por isso, também foi necessário que Ele se engajasse, por assim dizer, de perto com os poderes do inferno e os horrores da morte eterna. Nós recentemente citamos a partir do Profeta, que “o castigo que nos traz a paz sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados”, que “Ele foi moído por causa das nossas iniquidades”, que “Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades”, que intimam que, como um patrocinador e fiador dos culpados e, por assim dizer, sujeito à condenação, Ele assumiu e pagou todas as penalidades que deviam ter sido exigidas deles, excetuando-se apenas que as dores da morte não O puderam conter. Por isso, não há nada estranho em ser dito que Ele desceu ao inferno, visto que Ele suportou a morte que é infligida aos ímpios por um Deus irado. É frívolo e ridículo objetar que desta forma a ordem é pervertida, sendo absurdo que um acontecimento que precedeu o sepultamento deva ser colocado depois dele. Mas, depois de explicar o que Cristo suportou à vista do homem, o Credo adequadamente acrescenta o julgamento invisível e incompreensível que ele suportou diante de Deus, para nos ensinar que não só o corpo de Cristo foi dado como o preço da redenção, mas que havia um preço maior e mais excelente – que Ele suportou em Sua alma as torturas de um homem condenado e arruinado” (Calvin, Institutas 6:10, < https://www.ccel.org/ccel/calvin/institutes.iv.xvii.html >)

[4] “É digno de nota que, antigamente, aqueles credos que possuíam o artigo sobre a descida de Cristo ao inferno, não continham o artigo relativo ao seu sepultamento, e aqueles nos quais o artigo com respeito à descida ao inferno foi omitido, de fato continham o artigo relativo ao sepultamento” Herman Witsius, Dissertations on The Apostle’s Creed, vol. II, reimpressão (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1993), 140.

[5] “a intenção da alteração do Credo em Aquiléia não foi a de acrescer uma nova doutrina, mas a de explicar uma antiga e, portanto, o credo de Aquiléia omitiu a cláusula “foi crucificado, morto e sepultado” e a substituiu por uma nova cláusula, “descendit ad inferna”” Citado por W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. II (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1889), 604.

[6] “Witsius menciona que, por volta de 359, “encontraram-se em Constantinopla cerca de cinquenta pessoas, e lá compilaram um Credo, no qual professavam que criam em Cristo, que foi morto e sepultado e que ‘penetrou as regiões subterrâneas, nas quais até mesmo o Hades foi golpeado com terror’,” o que dá a entender um sentido diferente e que vai além de um sepultamento, contrastando com o entendimento de Rufino. J. N. D. Kelly também menciona que na doxologia da Didascalia siríaca, que parecia uma formulação credal, havia a seguinte expressão: “Que foi crucificado sob Pôncio Pilatos e partiu em paz, a fim de pregar a Abraão, Isaque e Jacó e a todos os santos a respeito do fim do mundo e da ressurreição dos mortos”. O descensus (“descida”), como uma atividade de Cristo em um mundo inferior entre a sua morte e a sua ressurreição, não apareceu, a princípio, nas formulações credais da igreja ocidental. Porém, sob a influência do pensamento da igreja oriental desde tempos bem antigos, veio a aparecer posteriormente até mesmo nas formulações ocidentais. Kelly afirma: “Deveria ser observado que após Santo Agostinho é que prevaleceu o hábito ocidental de explicar 1 Pedro 3.19 como um testemunho da missão de Cristo aos contemporâneos de Noé muito antes de sua encarnação” Heber Carlos de Campos, “Descendit ad Inferna”: Uma Análise da Expressão “Desceu ao Hades” no Cristianismo Histórico.

[7] Recomendo as considerações do ponto de vista gramatical abordada no artigo intitulado A pontuação de Lucas 23.43, disponível no seguinte link: < http://www.cacp.org.br/a-pontuacao-de-lucas-23-43/ >

Fonte: Estudo Biblico.org