Chamados Ao Propósito Eterno | Estudos Bíblicos Teológicos Evangélicos

O propósito eterno de Deus refere-se a algo que Ele propôs em si mesmo, especificamente na pessoa de Cristo Jesus. Como Cristo jamais pecou e não se achou engano na sua boca, o propósito de Deus permaneceu firme.


O propósito eterno de Deus é a espinha dorsal das Escrituras, porém, é uma doutrina pouco compreendida e negligenciada. Essa verdade revelada nas Escrituras deve ser estudada e compreendida para ser possível aos cristãos mensurarem a grandeza das riquezas da gloria que há de ser revelada nos salvos.

 

Pensamento comum 

Persiste entre muitos cristãos a ideia equivocada de que o propósito de Deus deriva da queda do homem por falta de conhecimento das Escrituras. Uma leitura superficial da Bíblia pode induzir a conclusão que  salvar a humanidade seria o propósito eterno de Deus para remedias as consequências da queda.

Para desfazer esse equivoco, primeiro se faz necessário deixar registrado que Deus quer salvar todos os homens, o que só é possível através do conhecimento da verdade (evangelho).

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” (1 Timóteo 2:4).

No versículo acima, o apóstolo Paulo utiliza o verbo θέλω (theló) traduzido por ‘querer’ para enfatizar o desejo de Deus: a salvação de todos os homens. O adjetivo πᾶς (pas) traduzido por ‘todos’ indica que Deus não faz acepção de pessoas, de modo que Ele deseja salvar homens de todas as nações, tribos, línguas.

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15);

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mateus 28:19).

Mas, apesar da Sua boa vontade, Deus não pode abrir mão da Sua justiça, e por isso a salvação só é possível quando os homens ‘conhecem’ a verdade, ou seja, quando se tornam um com Cristo.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:31-32).

Para o homem se achegar ao ‘conhecimento da verdade’, primeiro tem que permanecer nas palavras de Cristo, ou seja, ser um discípulo de verdade. Só após se tornar um verdadeiro seguidor de Cristo o crente se tornará um com Ele, ou seja, conhecerá a verdade e será liberto do Senhor.

“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (João 17:21).

Ser um com Cristo é conhece-Lo. ‘Conhecer’ no sentido de comunhão intima, unidos em um só corpo.

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9).

Confundir o desejo de Deus com o Seu eterno propósito é erro comum. O proposito eterno de Deus é algo que transcende a eternidade. O propósito eterno estava em Deu antes mesmo de todas as coisas serem criadas. Antes mesmo de haver mundo, antes mesmo de todas as coisas serem chamadas a existência, Deus já tinha um propósito eterno estabelecido na pessoa do Cristo!

“Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,” (Efésios 3:11).

Se o propósito de Deus era tão somente se revelar como salvador e resgatar por intermédio de Cristo o homem do pecado, Deus ficaria na dependência de Adão desobedecer ao Seu mandamento no Éden para dar curso ao Seu propósito.

Se o propósito fosse firmado no homem, o propósito jamais seria eterno, pois o homem é um ser criado, portanto, com início de dias. Deste modo, o propósito somente é eterno porque Deus estabeleceu o seu propósito em Si mesmo, o que ocorreu na pessoa de Cristo.

Com a queda ou não da humanidade, o propósito de Deus é o mesmo, ou seja, imutável e permaneceu firme, pois foi estabelecido na pessoa do Seu Filho. Deus não poderia mudar o seu propósito em decorrência da queda de Adão, ou ter um propósito em decorrência da queda.

O propósito eterno deve ter um enfoque teocentrista, pois tudo o que foi criado é para louvor da glória de Deus, e não para atender as vontades das suas criaturas. A criação atende ao propósito eterno de Deus, diferente da ideia que Deus criou todas as coisas para atender os propósitos de suas criaturas.

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo,” (Efésios 1:9).

O propósito eterno de Deus refere-se a algo que Ele propôs em si mesmo, especificamente na pessoa de Cristo Jesus. Como Cristo jamais pecou e não se achou engano na sua boca, o propósito de Deus permaneceu firme.

 

Qual a intenção de Deus ao criar o homem?

“Também disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” (Gênesis 1:26).

O erro com relação a0 propósito de Deus tem início na leitura do primeiro verso na Bíblia que Deus faz alusão a criação do homem. Ler o versículo como se o homem fosse a medida de todas as coisas produz um grande equívoco. O correto é ler o evento da criação do homem tendo Cristo como foco.

Cristo é o foco da criação, pois tudo foi criado por Ele e para Ele.

“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.” (Colossenses 1:16).

Mas, se o foco da criação é Cristo, por que Deus criou Adão? Porque o pináculo de toda criação é o segundo homem, Cristo, que é do céu

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu.” (1 Coríntios 15:47).

Para Deus realizar o seu propósito, que tem por alvo o segundo homem, não podia começar a desenvolver o seu propósito pelo homem que é do céu, e por isso, criou o primeiro homem, Adão, que é da terra e terreno. Não podemos perder o foco do grande objetivo da criação: o beneplácito que Deus propôs em si mesmo.  O eterno propósito de Deus não foi estabelecido no primeiro homem, e sim, no último homem, que é Cristo Jesus nosso Senhor.

A primeira expressão de Deus na Bíblia não destaca a necessidade de salvação da humanidade, e sim, o propósito de Deus em fazer o homem conforme a Sua imagem e semelhança.

Aqui temos a grande questão: a imagem e semelhança de Deus seria concedida ao primeiro homem, Adão, ou é algo que se refere ao segundo homem, que é Cristo?

Na criação do homem, Deus descreve o seu plano: “Façamos o homem conforme a nossa imagem e semelhança”. A má leitura tem início quando se entende que quando Deus moldou um boneco a partir do pó da terra, fez conforme a Sua imagem e semelhança. Outro equívoco pior é considerar que Deus é um ser moral, e que a imagem e semelhança concedida a Adão foi de ordem moral.

“Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” é o que Deus se propôs realizar através do último homem. Mas, para levar a efeito o Seu eterno propósito, que é fazer o homem a Sua imagem e semelhança, primeiro Deus criou Adão, homem natural e terreno, pois primeiro é o natural, para depois vir o espiritual.

“Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu.” (1 Coríntios 15:46-47).

Isso significa que Adão foi criado a imagem e semelhança do Deus invisível? Não! Adão foi criado a figura de Cristo, o último Adão, ou seja, ‘aquele que havia de vir em carne’ e que ‘em tudo seria semelhante aos homens’.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. (Romanos 5:14).

O Verbo eterno tudo criou pelo poder da sua palavra, ou seja, trouxe do nada a existência todas as coisas. Mas, com relação ao primeiro homem o processo de criação foi diferente. O Verbo eterno teve que se manifestar teofanicamente no Éden e moldar o homem utilizando o pó da terra, e em seguida, soprou em suas narinas, tornando o homem alma vivente.

A imagem que o Verno eterno que a tudo criou concedeu ao homem foi a figura que Ele haveria de vir ao mundo, a mesma figura que Ele teofanicamente assumiu para formar um boneco do pó da terra.

“… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” (Romanos 5:14).

Quando é dito façamos o homem a nossa imagem e semelhança, Deus descreve a obra que se consuma na nova criação. Poucos entendem que há duas criações, uma que está atrelada aos bens futuros, e a outra que se refere a obra da criação que agora existe.

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação,” (Hebreus 9:11).

Devemos ter em mente que o propósito eterno que Deus estabeleceu em Si mesmo na pessoa de Cristo não tem relação com as obras desta criação, e sim, com a nova criação. Mas, para haver uma nova criação, primeiro se fez necessário Deus criar uma existência que comportasse o homem natural e terreno.

“E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis.” (Apocalipse 21:5).

Quando Deus descansou no sétimo dia, descansou das obras desta criação, mas com relação a criação futura é dito por Cristo: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também.” (João 5:17; Gênesis 2:2).

Em ambas criações, a presente e a vindoura, a questão primordial é a imagem concedida às criaturas. Quando foi criado o homem natural e terreno, Adão, foi-lhe concedida a imagem que o Cristo-homem viria sobre a terra. Ao ser dada a imagem do Cristo-homem a Adão, Deus predestinou todos os descendentes de Adão a terem a mesma imagem, e por isso é dito: “Qual o terreno, tais são também os terrestres;” (1 Coríntios 15:48).

Com relação a futura criação, o que está em voga também é a imagem, e por isso é dito:

“… e, qual o celestial, tais também os celestiais.” (1 Coríntios 15:48).

É por isso que o apóstolo Paulo afirma que aqueles que se tornaram um com Cristo (dantes conheceu), também os predestinou a terem a mesma imagem de Cristo, pois assim como Cristo é, os salvos o verão e serão tal qual Ele é.

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

É em razão da segunda criação que toda a criação geme, na expectativa da manifestação dos filhos de Deus.

“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15:49);

“Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.  E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8:19-23).

Quando Cristo se manifestar, ocorrerá a redenção do corpo dos salvos em Cristo, e todos serão semelhantes a Ele, pois só assim será possível aos salvos verem a Cristo face a face, vez que Ele é a expressa imagem do Deus invisível.

“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.” (Colossenses 3:4);

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.” (1 João 3:2);

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (Romanos 8:18).

 

O propósito de Deus em Cristo

Na eternidade Deus propôs fazer o Cristo glorificado, o seu primogênito, o mais elevado dos reis da terra no plano terreno e, no plano celestial, constituí-lo primogênito entre muitos irmãos.

Antes mesmo de serem criadas todas as coisas, segundo o beneplácito de sua vontade, Deus propôs congregar em Cristo glorificado todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus, e para isso lhe concedeu um nome que está acima de todos os nomes que se nomeiam no presente século e no vindouro.

“Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.” (Efésios 1:20-23).

Com a queda ou sem a queda, o propósito de Deus, estabelecido em Si mesmo, é colocar o seu Filho assentado à sua destra, acima de principados, poderes, potestades e domínios, de modo que todas as coisas lhe fossem sujeitas.

Ao sujeitar todas as coisas aos pés do Cristo glorificado, Deus reúne todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra, na pessoa do Cristo.

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;” (Efésios 1:9-10).

O propósito eterno não se concretiza na pessoa do Verbo eterno que existe desde de o princípio, que estava com Deus e era Deus, o Criador de todas as coisas (João 1:1-3).

O propósito eterno também não se concretiza na pessoa do Verbo eterno  quando foi introduzido no mundo despido de sua glória. Ao ser introduzido no mundo, Jesus Cristo-homem foi gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, inclusive herdou a imagem que concedeu a Adão no Éden. Enquanto viveu entre os homens, Jesus foi em tudo semelhante aos homens, ou seja, ele ainda não era a expressa imagem do Deus invisível.

“Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.” (Hebreus 2:16-17).

Mas, convinha que o Cristo em tudo fosse semelhante aos homens, participante de carne e sangue (Hebreus 2:14), mesmo Ele sendo o Criador de todas as coisas, visto que era necessário que Ele provasse a morte para aniquilar o diabo, que detinha o império da morte.

O propósito eterno se concretizou na pessoa do Cristo quando Ele ressurgiu dentre os mortos em um corpo glorificado à expressa imagem do Deus invisível, quando foi feito primogênito de toda criação.

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,” (Colossenses 1:15-19).

Quando Cristo ressurgiu dentre os mortos em um corpo glorioso, o propósito de Deus de fazer o homem conforme a sua imagem e semelhança se concretizou! No último homem, o Cristo glorificado, o propósito eteno de Deus proposto desde a eternidade foi concluso. No momento da ressurreição, toda a plenitude da divindade passou a habitar corporalmente o Senhor Jesus! Antes de ser introduzido no mundo, o Verbo eterno era cem por cento Deus. Ao deixar a sua glória e ser introduzido no mundo, Jesus era cem por cento homem, e por isso pode provar a morte. Ao ressurgir dentre os mortos, Cristo assumiu a condição e posição de expressa imagem do Deus invisível.

“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade;” (Colossenses 2:9).

É grandioso o propósito eterno de Deus, que teve início na criação do homem natural, mas que se concretizou no homem espiritual, sendo este o segundo homem, e aquele, o primeiro homem. Além de Cristo ser o segundo homem, Ele também foi constituído cabeça de uma nova espécie de homens, e por isso, é nomeado também de último Adão.

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15:45-49).

O propósito de Deus na eternidade era fazer o Seu Unigênito, Primogênito. Através do primeiro homem, Adão, Deus criou os elementos necessário para introduzir o seu Unigênito no mundo, participante de carne e sangue, pois era necessário vir primeiro o natural, depois, o espiritual. Quando Cristo foi morto e sepultado, como a morte não tinha poder sobre Ele por ser isento de pecado, Deus O ressuscitou dentre os mortos na condição de ‘segundo homem’, tornando se assim o Primogênito de Deus.

O primeiro e o último Adão são homens naturais e terrenos, ambos cabeça de raça com um grande diferencial: o último Adão é espírito vivificante, e o primeiro Adão alma vivente. O primeiro homem é o primeiro Adão, já o último Adão, ao ressurgir dentre os mortos tornou-se o segundo homem, e todos os que são gerados de Deus por intermédio da Sua palavra são gerados segundo a imagem do homem celestial, para que Cristo não seja somente primogênito, mas primogênito entre muitos irmãos.

A justiça se Deus se efetiva através do último Adão, pois era necessário haver substituição de ato, a desobediência pela obediência (Romanos 5:18). A nova criação se efetiva no último homem, que é Cristo.

Perceba que ao falar do propósito eterno, a salvação fica em segundo plano, e o que ganha notoriedade é a imagem. Da mesma forma que há paridade de imagem entre os terrenos, o apóstolo Paulo destaca que há paridade de imagem entre os espirituais, de modo que, da mesma forma que ao sermos gerados dos nossos pais adquirimos a imagem terrena, semelhantemente, traremos a imagem do celestial por sermos gerados de Deus por intermédio da palavra da verdade.

A primeira criação não sofreu dores de parto, pois tudo veio a existência do nada através da palavra de Deus. Entretanto, agora, toda a criação está em grande expectativa, inclusive os salvos em Cristo, aguardando a revelação dos filhos de Deus! Será o grandioso evento na criação, o momento em que Cristo se manifestar em glória para arrebatar a sua igreja, pois neste dia todos os filhos de Deus serão libertos da corrupção, se se manifestarão em glória conforme o corpo glorioso de Cristo.

“Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.  E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8:19-23).

O evento da redenção do corpo do salvos é tão grandioso, que o apóstolo Paulo deixa claro que não há como mensurar tal glória a ser revelada.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (Romanos 8:18).

Se tivéssemos um vislumbre de como é os céus, talvez pudéssemos antever a glória que será revelada nos salvos. Cristo glorificado é mais sublime do que os céus, e será tal gloria que será revelada nos filhos de Deus.

“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus;” (Hebreus 7:26).

 

O pecado interferiu no propósito de Deus? 

Definitivamente não. O pecado interferiu na natureza de muitos anjos e de todos os homens, mas nem de longe comprometeu o propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

Considerando a queda da terça parte dos anjos, percebe-se que ela ocorreu porque eles desconheciam a multiforme sabedoria de Deus segundo o propósito eterno que Deus fez em Cristo e, que só agora, na plenitude dos tempos, foi manifesta aos principados e potestades dos céus através da igreja.

“Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,” (Efésios 3:10-11).

A queda de Lúcifer se deu exatamente porque ele desconhecia o propósito eterno de Deus e intentou alcança-lo, e com isso, fascinou terça parte dos anjos. Lúcifer, ao ser criado, foi constituído o pináculo da perfeição e comissionado por Deus a exercer o ofício de guarda no jardim do Éden impedindo que os seres angelicais tomassem conhecimento do propósito que Deus estava desenvolvendo.

Para exercer o ofício de guarda, foi concedido por Deus ao Querubim da Guarda Ungido uma indumentária com enfeites que o distinguia dos demais. Mas, enquanto exercia o seu oficio impedindo a aproximação dos demais seres angelicais, Lúcifer teve um vislumbre do propósito eterno de Deus, e por sua formosura e esplendor, achou que ele seria o beneficiário do projeto divino.

Lúcifer tentou lucrar com o exercício da sua função ao vislumbrar o propósito eterno, e elucubrou em seu coração galgar uma posição hierárquica acima dos demais seres angelicais, tornando-se semelhante ao Altíssimo. Algo que Deus estava projetando para si mesmo na pessoa de Cristo, Lúcifer por sua formosura, corrompeu a sua sabedoria, e ao intentar lançar mão de uma gloria que pertencia ao Criador, cometeu violência contra o Senhor.

“Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardónia, topázio, diamante, turquesa, ónix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti. Pela multidão das tuas iniquidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te veem. Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.” (Ezequiel 28:12-19.

“Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.” (Isaías 14:12-14).

Observe que o intento de Lúcifer não era se igualar ao Criador, recebendo a adoração que é devida exclusivamente a Deus, antes ele intentava alcança a posição de semelhante ao Altíssimo, posição que é própria aos salvos em Cristo, a igreja, sendo Cristo, a cabeça, a expressa imagem do Deus invisível, ou seja, semelhante ao Altíssimo.

O diabo se intrometeu e tentou tolher o propósito de Deus? Não! Na verdade, ao perceber a grandiosidade do que Deus estava desenvolvendo no Éden, intentou tomar para si, pois desconhecia que a multiforme sabedoria de Deus segundo o propósito eterno era conceder a semelhança do Altíssimo a Cristo.

Como os seres angelicais não são chamados para compor o propósito eterno, Deus não providenciou salvação para eles.

E a queda do homem interferiu no propósito eterno de Deus? Não! O propósito de Deus permaneceu firme por causa da eleição de Deus, posto que o propósito sempre esteve firmado em Cristo.

Com a queda de Adão, todos os seus descendentes foram excluídos da gloria de Deus, e tornaram-se impróprios para o Seu propósito. Mas, como escolheu a descendência de Abraão, e não os seres angelicais (Hebreus 2:16), para levar a efeito o propósito que havia estabelecido em Cristo, Deus providenciou salvação poderosa na casa de Davi.

A salvação é ofertada a todos os homens por intermédio do evangelho de Cristo, que é poder de Deus para salvação de todo que crê. Cristo é o descendente prometido que trouxe salvação a todos homens, e aqueles que creem passam a estar debaixo do favor de Deus.

Concomitantemente, os salvos em Cristo, os que creem no evangelho, são chamados com santa vocação, não pelas obras, para comporem o eterno propósito de Deus, que é fazer o Cristo primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele.

Por isso os salvos são denominados santos e eleitos de Deus em Cristo tendo em vista o propósito eterno e predestinados a serem conforme a imagem do Filho.

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos;” (2 Timóteo 1:8-9).

Os versículos acima evidenciam que o cristão não pode se envergonhar do evangelho, antes deve ser participante das aflições do evangelho, que é segundo o poder de Deus que salva. Quando Deus salva por intermédio do evangelho, chama os salvos com santa vocação, não segundo o que tenha feito por meio do corpo, bem ou mal, mas segundo o Seu propósito estabelecido em Cristo na eternidade e que é concedido graciosamente.

Com a queda o homem não perdeu a imagem de Deus, pois nunca teve a semelhança do Altíssimo. O homem somente teve a imagem e semelhança do primeiro homem, da terra e terreno, que foi feito a figura do Cristo que haveria de vir.

A queda desvirtuou a natureza do homem tornando-o improprio para o propósito eterno de Deus que é compartilhar da sua glória, pois ergueu uma barreira de separação entre Deus e os homens. A salvação restabelece a natureza do homem e a comunhão com o Criador, o que o torna apto a alcançar a semelhança do Altíssimo.

Recapitulando. O homem foi criado para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo, e a queda introduziu a inimizade entre Deus e o homem. Quando ocorre a reconciliação com Deus por intermédio do evangelho, automaticamente o salvo está predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, por isso é chamado com santa vocação a ser coerdeiro com Cristo de todas as coisas, e em tudo semelhante a Ele.

 

Deus poderia desistir do seu propósito? 

Jamais! Embora o homem tenha pecado, Deus não mudou o seu eterno propósito.

O propósito de Deus é único e imutável: a preeminência de Cristo em tudo.

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,” (Colossenses 1:18-19).

Cristo é o primogênito de Deus, e ao se assentar no trono de Davi, será constituído no milênio o mais elevado do que os reis da terra.

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra.” (Salmo 89:27).

Cristo foi exaltado ao assentar a destra da Majestade nas alturas, será elevado mais que os reis da terra e entre os salvos em Cristo, na condição de primogênito, será mui sublime.

“Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime.” (Isaias 52:13).

O propósito eterno de Deus não é um dos planos de Deus, ou um dos seus intentos. Deus não tergiversa entre objetivos e nem abre mão do que estabeleceu. Nenhum dos planos de Deus depende de suas criaturas, e como Ele é todo poder, realiza tudo o que lhe apraz.

“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” (Jó 42:2).

Cristo é o eleito de Deus para o seu eterno propósito, e os cristãos são chamados com santa vocação ao propósito, sendo predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.
(2 Timóteo 1:8-9; Romanos 8:28-29). Quando os salvos forem transformados conforme a imagem de Cristo, o propósito de Deus se concretiza: Cristo será primogênito entre muitos irmãos, o mui sublime entre sublimes.

O crente é vocacionado somente para esse propósito, que o apóstolo Paulo denomina ‘prêmio’. O alvo do cristão é Cristo, que concede salvação, que será premiado segundo a vocação em Cristo: será participante do propósito eterno.

“Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3:14).

É por isso que o cristão deve se portar de modo digno da vocação em Cristo (Efésios 4:1-3), e cada vez mais se esforçar para confirmar a vocação e eleição (2 Pedro 1:10). Como? Em ‘temor’ (verdade) e ‘tremor’ (obediência), ou seja, obedecendo a verdade do evangelho: crer em Cristo.

“Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.” (Filipenses 2:12-13).

 

A Salvação é um meio e não um fim

A obra redentora de Cristo Jesus revela a multiforme sabedoria de Deus, visto que Deus se revela justo e justificador daqueles que creem em Cristo. Entretanto, apesar de grandiosa, a salvação não pode ser confundida com o propósito eterno de Deus.

A obra redentora de Deus em Cristo concede nova vida ao homem, restaurando a comunhão com Deus. Entretanto, a redenção é o meio que Deus utiliza para alcançar o seu eterno propósito.

A redenção não é um fim em si mesma, mas apenas o meio para dar curso ao propósito eterno. A redenção tem por objetivo corrigir um erro do homem, jamais ajustar a rota do propósito eterno.

O apóstolo Paulo sempre destaca que a redenção sempre visou atender o propósito de Deus, que é congregar todas as coisas em Cristo. OS que amam a Deus, ou seja, que obedeceram ao evangelho, são aqueles chamados ao propósito de Deus. Como os que amam a Deus se tornaram um com Cristo (conheceu), estão predestinados a serem conformes à imagem de Cristo, pois este é o único objetivo: Cristo primogênito entre muitos irmãos.

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:28-29).

 

Fonte: Estudo Biblico.org